Já reparou que a vida moderna nos quer sempre de pescoço curvado? No ponto de ônibus ou na sala de espera, somos uma fila de pessoas presas a telas de vidro.
Eu fui a rainha dessa postura. Conhecia cada detalhe do piso do meu escritório, mas não sabia dizer qual era a fase da lua ou se os ipês já tinham florido.
O problema de olhar só para baixo é que o mundo encolhe. Sem noção de escala, um e-mail desaforado vira o fim do mundo. Minha alma — e minha pele — murcharam.
O basta veio em uma crise de tontura no asfalto. Ao levantar o queixo para não cair, vi um pôr do sol alaranjado entre os prédios. Eu estava cega para o presente.
Percebi que estava perdendo a vida real por notificações que nem seriam lembradas na semana que vem. Decidi que "levantar o queixo" seria meu maior ato de sobrevivência.
Quando olhamos para a imensidão, os problemas perdem o peso. É a matemática da alma: quanto maior a sua visão periférica, menor fica o tamanho do seu ego e da sua dor.
O céu é o lembrete constante de que somos parte de algo imenso. Que tal levantar o rosto hoje e deixar que a luz do horizonte devolva o brilho que o celular roubou?