A Coragem de Ser Chata: Por que Dizer ‘Não’ a Convites Sociais Salvou Minha Saúde Mental.

Sempre fui conhecida como a “amiga chata” do grupo – aquela que preferia ficar em casa vendo séries a pegar uma festa de sexta-feira. Mas descobri da maneira mais difícil que essa “chatice” foi um presente disfarçado para a minha saúde mental. Eu sou a Ada, tenho 24 anos, moro em Curitiba e trabalho em horário comercial de CLT, das 8h às 16h. Já passei por situações em que me senti pressionada a dizer “sim” para convites sociais, mesmo querendo dizer “não”. Hoje entendo que priorizar meu bem-estar me fez muito mais bem do que fugir do famoso #FOMO (medo de ficar de fora).

O convite de sexta-feira que mudou tudo

Em 2021, comecei a trabalhar numa empresa no centro de Curitiba. Tudo era novo e, como em qualquer CLT, a vida era agitada. No meu setor, fiquei próxima da Aline (que até hoje é meu ponto de apoio) e de mais alguns colegas. A rotina era intensa: chegávamos cedo, resolvíamos mil coisas e, quando sexta-feira chegava, o cansaço era absurdo. Numa dessas sextas, um grupo grande do escritório planejou uma festa após o expediente. Eles combinaram que, depois da firma, iam pular essa festa e só depois seguiriam para casa. Era tipo um plano corriqueiro.

Chegamos no fim do dia, todos exaustos. Então, alguém sugeriu: “E se a gente desse uma passada rápida nessa festa antes de ir pra casa?” Foi aí que soltaram:
– Ada, vem com a gente pra balada? – falaram, animados.
Eu dei uma risada sem graça e respondi na lata: “Balada? Deus me livre! Prefiro ficar em casa vendo minha série favorita e comendo chocolate.” Não fiz cara de culpa nem nada, simplesmente desliguei aquele interruptor de “eu devo dizer sim”. Os colegas riram de leve, mas não insistiram. Duas amigas do meu setor e eu fomos cada uma para sua casa descansar. O resto do pessoal foi festejar como planejado (tinha o Marcos, a Vitória, o Silva e um pessoal que eu nem conhecia direito).

No dia seguinte, sábado, vimos que vários nomes não apareceram para trabalhar. Contei os atrasos e os faltosos: eram todos os que tinham ido à festa. A nós que havíamos ficado descansados, coube quebrar galho no serviço, porque o chefe, obviamente, não ficou nada satisfeito. Na segunda-feira ele chegou irritado, culpando todo mundo pela correria. E aí a notícia que congelou a espinha: o Zé, a Vitória e o Silva tinham sumido na balada. Reza a lenda que o único que voltou foi o Marcos, todo transtornado, dizendo que nada fazia sentido.

Naquele momento, veio uma notícia bizarra vinda do senhor Robert, o faxineiro querido de 55 anos:
– Pegaram eles… e sumiram. Nunca mais vão aparecer por aqui – ele murmurou com um olhar sério. Ninguém sabia muito o que dizer, apenas nos olhávamos assustados. Fiquei congelada. Até hoje me pergunto: e se eu tivesse ido naquela festa? O que poderia ter acontecido comigo? A polícia procurou os desaparecidos por semanas, dias sem fim, mas nada deu certo – as câmeras do bar estavam desligadas, ninguém viu ou ouviu nada. O mistério ficou no ar.

No fim das contas, fomos nós, do grupo que não foi, que agradecemos silenciosamente por termos ficado em casa. A sensação foi estranha: uma mistura de alívio, culpa e incredulidade. Foi aí que entendi o óbvio de um jeito drástico: às vezes dizer “não” é a melhor decisão que alguém pode tomar. Eu tinha saído ilesa daquele lance todo, feliz com minha série e o pote de chocolate. Enquanto isso, meus colegas estavam vivendo um verdadeiro pesadelo.

Aprendendo a valorizar meu “não” após o choque

Depois desse episódio sombrio, eu voltei pra rotina mudada. Não foi imediato, mas aos poucos percebi que não precisava sentir culpa por ser a “estraga-prazer” que ficou de fora. Eu descobri algo fundamental: meu conforto e saúde mental são prioridades. Se antes eu me forçava a participar de tudo só para não parecer estranha, a partir dali fiz diferente. Parei de achar que era “mala” por não querer ir em todos os rolês. Em vez disso, pensei: “Obrigada por me chamar, mas hoje realmente não rola.”

Foi um aprendizado duro. Alguns colegas não entenderam no começo. Uma amiga chegou a reclamar: “Você é muito chata, sempre diz não!”. Eu até entendi – no começo soava estranho mesmo. Mas eu precisava ser fiel ao que eu precisava naquele momento: descanso e sossego. Com o tempo, percebi mudanças enormes na minha vida. Passei a ter mais energia, não sofria mais com aquela ansiedade de compromissos sociais que eu nem queria. E o mais importante: minha saúde mental se estabilizou. Para mim, isso vale mais do que qualquer festinha de sexta ou evento no fim de semana.

Não foi fácil explicar isso para quem não entendia. Eu passei a falar mais abertamente: “É que eu prefiro passar um tempo comigo mesma”. Usei frases do tipo “Eu aprendi que preciso desse tempo para recarregar a bateria.” e “Não se preocupe, depois posso marcar algo mais tranquilo.”. Essas explicações fizeram a galera aceitar melhor meu lado “chato”. Hoje, meus amigos até admiram: sabem que podem contar comigo, mas respeitam quando eu preciso respirar. Eu me sinto muito mais forte por ter tido essa coragem de dizer “não”.

Outro episódio: aprendendo a ouvir meu corpo

Essa história da festa não foi a única que me ensinou sobre limites, mas foi a mais marcante. Tive outras situações menores em que dizer “não” fez toda diferença. Por exemplo, recentemente, no trabalho atual onde sou CLT e trabalho em RH (agora trabalho com a minha melhor amiga, a Alice, o que deixou tudo muito mais leve). Teve um fim de ano em que a empresa organizou uma confraternização fora de hora, com quiz, competição de karaokê (alguns sabem como sou desastrada no microfone…) e open bar liberado. Para todo mundo parecia incrível, mas eu já vinha exausta. O corpo pedindo cama e o coração pedindo calmaria.

Assim que soube do evento, meu primeiro instinto foi gemer baixinho e pensar “Oh, não…”. Fui procurada pela organização:
– Ada, não vai faltar à festinha de fim de ano, né? – disseram sorrindo.
Na hora, senti aquele aperto no peito de antes de dormir tarde demais. Vi meus colegas de RH animados pedindo uma música pra colocar. E a danada da vontade de dizer “Não posso, dessa vez vou ter que passar.” estava crescendo. Consegui gargalhar e responder: “Gente, obrigada, mas esse ano vou dar uma passada. No meu ritmo, sabe?” Disse numa boa e segui no meu canto, trabalhando mais um pouco.

No dia seguinte, todo mundo voltou contando como foi divertido. Os colegas elogiaram a organização – alguns até ficaram sabendo que o chefe fez um discurso emocionado. Eu escutei enquanto preparava café na copa e pensei: “Que bom pra eles”. Depois do expediente, cheguei em casa, deitei no sofá, comi miojo quentinho e coloquei minha série favorita. No dia seguinte, acordei renovada, com disposição, sem ressaca ou voz rouca de tanto cantar no karaokê.

Se eu tivesse ido à festinha, provavelmente chegaria tarde em casa, indisposta. No outro dia, teria dificuldade para acordar e meu trabalho sofreria, com o cansaço acumulado. Percebi que esse “não” também me salvou de um colapso. Nessa ocasião, não havia sumiço misterioso; o salvamento foi mais sutil, mas não menos importante. Foi um pequeno milagre diário para a minha sanidade. Não precisei de nada extraordinário – apenas de ouvir meu corpo e recusar com educação.

Como praticar o “não” sem culpa

A partir dessas experiências, fui criando algumas estratégias que me ajudam a dizer não sem carregar culpa. Se você, como eu, se sente mal ao imaginar amigos falando “que chata” ou “por que não vem?”, pode tentar algumas coisas que funcionaram no meu dia a dia:

  • Seja sincera e breve: em vez de inventar desculpas mirabolantes, eu costumava responder de forma simples e honesta: “Hoje não vai dar, mas obrigada pelo convite!”. Isso evita enrolação e a sensação de que estou mentindo para evitar a culpa alheia.

  • Ofereça alternativa mais tranquila: quando possível, sugiro outro programa que me deixe confortável, tipo: “Que tal a gente marcar um café outro dia, dessa vez com calma?”. Assim, mostro que me importo com a amizade, só não quero aquela festa barulhenta.

  • Lembre-se dos benefícios: toda vez que eu ouço a vozinha dizendo “você deveria ir”, tranco-a lembrando do que realmente ganhei ao dizer não: horas de sono a mais, menos ansiedade, corpo descansado. Anoto mentalmente essas vitórias silenciosas.

  • Crie um ritual pós-“não”: farei algo gostoso depois de recusar. Pode ser um banho relaxante, ler um livro ou comer minha sobremesa favorita. Assim, o ato de dizer não vira também um autocuidado.

  • Respeite seu ritmo: cada um tem um limite diferente. Eu aprendi que não preciso ser a última pessoa de pé na balada pra ser legal. Respeitar meu ritmo significa aceitar que minha energia é valiosa e fugaz.

Com o tempo, essas atitudes viraram rotina. Afinal, ninguém deu certificados para quem frequenta todas as festas e eventos. Minha autoestima aumentou ao perceber que não sou menos divertida ou menos amiga por priorizar meu descanso. Pelo contrário: ser honesta sobre as minhas necessidades fortaleceu meus laços sociais (gente que se importa com meu bem-estar continua por perto) e, mais importante, me deixou com mais equilíbrio emocional.

Ser considerada “chata” quando você simplesmente está cuidando de si mesma pode parecer um rótulo difícil de carregar. Eu mesma brinco que aprendi a rir da ideia: sou a Ada chatona, mas por um ótimo motivo. Se tem algo que ficou claro com todas essas histórias, é que dizer “não” não significa perder algo irreparavelmente – significa ganhar tempo para respirar e viver com menos estresse. Minha saúde mental agradeceu cada minuto a mais de sono, cada série maratonada no sofá e cada dia sem dar explicações demais.

Eu não prometo que dizer não resolverá todos os problemas – mas garanto que, no meu caso, fez uma diferença gigantesca. Não vou pintar um futuro perfeito só porque consegui impor meus limites; na vida sempre haverá pressões sociais. O que mudou foi como lido com elas: agora eu coloco meu bem-estar em primeiro lugar, sem tabu. Minha mensagem para você é simples: permissão para ser chato é algo libertador. Não tenha medo de priorizar você.

Se você já passou por algo parecido ou ficou curioso sobre o tema, conta pra mim aqui nos comentários. Adoraria saber se você também tem uma história em que um simples “não” mudou tudo. Afinal, a empatia cresce quando compartilhamos experiências reais. E quem sabe a sua história ajude outro alguém a entender que, às vezes, a coragem de dizer não é justamente o gesto mais corajoso e saudável que podemos ter.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *