A Mentalidade do ‘Em Construção’: Por Que Aceitar Minhas Falhas Me Deixa Mais Forte.

Durante anos, vivi assombrada por uma imagem idealizada de quem eu deveria ser. Na minha cabeça, existia uma “Ada do Futuro”: ela era incrivelmente disciplinada, nunca perdia a paciência, tinha todas as respostas na ponta da língua e, claro, nunca deixava a louça suja na pia. Eu perseguia essa versão final e polida de mim mesma com uma ferocidade exaustiva.

O problema dessa busca é que, toda vez que eu cometia um erro — fosse um prazo perdido, uma resposta atravessada para alguém que amo ou um projeto que não saía como planejado —, eu não via aquilo como um aprendizado. Eu via como uma prova de que eu era defeituosa. A falha não era um evento; era uma identidade.

Eu demorei muito para entender que a vida não é sobre chegar a um estado de perfeição estática, como uma estátua de mármore finalizada em um museu. A vida é o canteiro de obras.

Oi amiga leitora Ada aqui e Neste artigo, quero compartilhar como adotei a mentalidade de estar permanentemente “Em Construção”. Não como uma desculpa para ser relapsa, mas como uma estratégia de sobrevivência emocional que transformou minha insegurança em combustível para crescimento real.

O Peso Esmagador da “Versão Final”

A raiz da minha ansiedade sempre foi a crença de que eu já deveria “estar pronta”. Aos 20 anos, eu achava que deveria ter a carreira resolvida. Aos 30, a estabilidade emocional de um monge. Essa expectativa irreal criava um paralisia silenciosa.

Lembro-me vividamente de um projeto profissional que quase não saiu do papel por causa disso. Eu estava criando um material educativo novo e passei três meses apenas na fase de planejamento. Eu escrevia, apagava. Gravava vídeos, deletava porque a luz não estava “de cinema”. Eu dizia para mim mesma que estava “aprimorando a qualidade”, mas, na verdade, eu estava morrendo de medo.

Eu tinha pavor de lançar algo imperfeito e ser julgada. O medo não era do trabalho ruim, era de expor que eu ainda não sabia tudo.

O Dia em que a Bolha Estourou

A virada de chave aconteceu quando, exausta e com o prazo estourado, fui obrigada a lançar o projeto em uma versão que eu considerava “Beta” (incompleta). Enviei o material com um frio na barriga, esperando críticas ferrenhas.

Para minha surpresa, o feedback que recebi mudou minha perspectiva. Uma aluna me escreveu: “Ada, o conteúdo é ótimo, mas encontrei um erro de digitação na página 10 e o áudio do vídeo 3 está um pouco baixo. Mas isso não atrapalhou o aprendizado, me ajudou muito!”.

Aquilo foi um choque. O mundo não acabou por causa de um erro. As pessoas não estavam procurando a minha perfeição; elas estavam procurando o valor que eu podia entregar apesar das minhas imperfeições.

O Aprendizado: Percebi que tentar esconder minhas falhas consumia mais energia do que corrigi-las. Ao aceitar que meu trabalho — e eu mesma — estava em “versão Beta”, ganhei a liberdade de errar rápido para aprender rápido. A perfeição é um escudo de 20 toneladas que nos impede de andar.

A Diferença Vital Entre Acomodação e Aceitação

Quando falo sobre aceitar falhas, muitas pessoas confundem com conformismo. “Ah, então eu sou desorganizada mesmo, nasci assim, vou morrer assim”. Isso não é a mentalidade do “Em Construção”; isso é a mentalidade de “Obra Abandonada”.

Existe um abismo entre dizer “Eu sou um fracasso nisso” e dizer “Eu ainda estou aprendendo a lidar com isso”.

Na minha rotina, a mentalidade de construção funciona como um filtro de autocompaixão ativa.

  • Acomodação diz: “Não consigo acordar cedo. Não é pra mim.”

  • Mentalidade ‘Em Construção’ diz: “Hoje falhei ao tentar acordar às 6h. O que houve? Fui dormir tarde? O quarto estava claro? Amanhã vou ajustar a estratégia.”

Aceitar a falha não significa abraçá-la como destino final. Significa olhar para o erro sem o chicote da culpa na mão. Quando tiramos a culpa da equação, sobra espaço para a curiosidade analítica. E é a curiosidade que resolve problemas, não a vergonha.

Desmontando a Armadura na Vida Pessoal

Se no trabalho a perfeição atrapalha, nas relações pessoais ela destrói. Durante anos, tentei ser a amiga forte, a parceira que nunca precisava de nada, a filha que resolvia tudo.

Houve um episódio doloroso, mas necessário, que ilustra bem isso. Eu estava passando por uma fase de estresse agudo, mas mantinha a pose de “tudo sob controle”. Numa discussão banal sobre quem deveria levar o lixo para fora, explodi com meu parceiro de uma forma desproporcional. Gritei, chorei, disse coisas que não sentia.

Imediatamente após a explosão, a vergonha veio como uma onda. O “velho eu” teria se isolado, ficado dias em silêncio punitivo, pensando: “Sou uma pessoa horrível, não sei me controlar, estraguei tudo”.

Mas, naquela época, eu já estava treinando minha nova mentalidade. Respirei fundo, engoli o orgulho e, em vez de me justificar ou me esconder, optei pela vulnerabilidade do “Em Construção”.

Sentei e disse: “Desculpe. Minha reação foi exagerada e injusta com você. Eu não sou uma pessoa raivosa, mas estou com dificuldade de gerenciar meu estresse esta semana. Estou aprendendo a identificar meus limites, e hoje eu falhei em ver que estava no limite antes de explodir. Vou tentar fazer diferente amanhã.”

A Aplicação Prática: Ao admitir que estava “aprendendo a lidar”, retirei o peso do julgamento moral. Meu parceiro não viu um monstro; viu um ser humano tentando melhorar. Isso desarmou a briga instantaneamente. Aceitar minha falha em tempo real fortaleceu a conexão entre nós, porque mostrou que eu era capaz de autocrítica e reparação.

Ferramentas para Viver no Modo “Em Obras”

Adotar essa postura exige prática diária. O nosso cérebro é treinado para o julgamento binário (bom/ruim, sucesso/fracasso). Para reprogramar isso, uso três ferramentas mentais na minha rotina:

1. O Poder da Palavra “Ainda”

Essa é uma técnica simples da psicologia do crescimento, mas poderosa. Sempre que me pego pensando “Não sou boa nisso”, eu forço a adição do “ainda”.

  • “Não sou boa em negociar.” → “Não sou boa em negociar ainda.”

  • “Não consigo manter a dieta.” → “Não consigo manter a dieta ainda.”

O “ainda” abre uma porta para o futuro. Ele sinaliza para o cérebro que a condição atual é temporária e passível de mudança.

2. Separe o “Quem Eu Sou” do “O Que Eu Fiz”

O erro é um evento, não uma característica. Quando algo dá errado, evito frases que começam com “Eu sou…” (Eu sou burra, eu sou lenta). Troco por descrições de comportamento: “Eu fiz uma escolha errada”, “Eu tive um ritmo lento hoje”. Comportamentos podem ser mudados; caráter é mais difícil. Tratar erros como comportamentos ajustáveis torna a mudança possível.

3. A Regra do “Tijolo por Dia”

Uma casa não se constrói do dia para a noite. A “Ada em Construção” não tenta resolver todos os seus defeitos numa segunda-feira. Se identifiquei que sou impaciente, meu foco não é virar o Dalai Lama amanhã. É apenas conseguir respirar fundo uma vez antes de responder a um e-mail chato hoje. Só uma vez. Esse é o tijolo do dia. Valorizar o micro-progresso é essencial para não desistir da obra.

A Realidade: Viver em Construção é Desconfortável

Não vou mentir para você prometendo que essa mentalidade traz paz eterna. Na verdade, aceitar que estamos em construção é desconfortável. Significa admitir que não sabemos tudo. Significa pedir desculpas mais vezes. Significa suportar a sensação de ser “iniciante” em áreas da vida onde gostaríamos de ser mestres.

Às vezes, é frustrante. Às vezes, olho para as minhas falhas recorrentes e penso: “De novo isso, Ada?”. Mas a diferença é que agora eu não desisto de mim mesma.

A força que vem dessa mentalidade não é a força da rigidez, que quebra sob pressão. É a força do bambu, que enverga, se adapta e continua crescendo. Quando parei de gastar energia escondendo minhas rachaduras, pude usar essa energia para consertá-las — ou, melhor ainda, para preenchê-las com ouro, como na técnica japonesa do Kintsugi, tornando a cicatriz a parte mais bonita da peça.

O Placa de “Desculpe o Transtorno”

Hoje, encaro minha vida com uma placa imaginária pendurada no pescoço: “Estamos em obras para melhor atendê-lo”. Isso vale para meu trabalho, para meu corpo, para minha espiritualidade e para meus relacionamentos.

Haverá poeira? Sim. Haverá barulho? Às vezes. Mas é sinal de que algo está sendo levantado, melhorado, expandido. O silêncio e a ordem perfeitas só existem em lugares vazios ou mortos. E eu escolho estar viva, bagunçada e crescendo.

Se você tem se sentido exausta tentando sustentar a fachada de que “está tudo pronto” e perfeito por aí, convido você a baixar a guarda. Abrace a sua reforma interna. É nela que a vida real acontece.

Qual área da sua vida você sente que precisa colocar a placa de “Em Construção” hoje para tirar o peso das costas? Compartilhe comigo nos comentários ou reflita em silêncio. Lembre-se: o canteiro de obras é o lugar onde o futuro é fabricado.

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