Sabe aquela sensação de friozinho na barriga quando você se olha no espelho vestida de forma caprichada e pensa: “Será que estou exagerando?”? Eu, Ada, já senti isso. Lembro de ter me arrumado linda para um encontro importante e, ao sair de casa, sentir medo de destacar demais. Tinha receio de parecer fingida ou de que os outros achassem que eu não merecia ser tão bem vestida. Só depois entendi que esse medo não era frescura: era a Síndrome da Impostora agindo na minha forma de vestir. Neste artigo íntimo, vou contar como descobri isso em mim, por que acontece e o que fiz para, aos poucos, me libertar desse medo.
Como a Síndrome da Impostora chega ao nosso guarda-roupa

Antes de tudo, vale esclarecer: a Síndrome da Impostora é aquela sensação persistente de não merecimento, de acreditar que nossos méritos são apenas sorte ou engano. A psiquiatra Nina Ferreira explica que, embora não seja um diagnóstico formal, esse termo descreve uma “coleção de sinais e sintomas de crenças de desvalor, de incompetência, de defeito” em nós mesmas. Em outras palavras, sentimos que somos “fraudes”, mesmo quando temos conquistas reais. E essas crenças negativas podem influenciar até o nosso estilo pessoal.
Na prática, isso significa que muitas vezes acabamos autolimitando o visual. Há vários motivos para isso:
Dúvida do próprio valor: A pessoa sente que não é boa o suficiente para merecer um look mais elaborado. Você pensa que seu bom gosto é sorte, não talento – e que um vestido bonito não representa seu verdadeiro valor. Como descrevem artigos sobre o assunto, é comum acreditar que “nossas conquistas são fruto de sorte” e não de competência. Isso gera receio de chamar atenção ou de ser vista como alguém que “se acha”.
Medo de ser desmascarada: Surge o temor de que, vestida com estilo, os outros vão “descobrir” sua suposta incompetência por trás da aparência. Estudos recentes sobre “síndrome impostora na moda” apontam que até roupas caras podem causar insegurança. Por exemplo, um estudo publicado no Journal of Consumer Research mostrou que consumidores de luxo frequentemente sentem “inautenticidade” ao usar itens sofisticados, pois a sensação de privilégio parece imerecida. Em resumo, se um acessório bonito me faz sentir que não mereço, fica difícil aproveitar elogios.
Busca pela perfeição no visual: Como temos um padrão interno muito alto (muitas vezes inatingível), ficamos paralisadas pensando “não posso errar na roupa”. Afinal, se não ficamos perfeitas, mais valia usar o básico e passar despercebidas. Esse perfeccionismo faz muita gente optar sempre por cores neutras (preto, bege) e peças discretas – afinal, elas “não dão cano” e não atraem muito comentário, minimizando o risco de fazer feio.
Insegurança e autossabotagem: No fundo, evitamos nos colocar em evidência. Se sentimos insegurança, acabamos fazendo autossabotagem estilística – vestimos o que parece “seguro” para não ter que lidar com olhares ou críticas. Pesquisa recente revelou que “muitas pessoas evitam vestir o que realmente gostam por medo de julgamento social”, e que a sensação de estar “indo muito arrumada” pode causar desconforto. Em outras palavras, preferimos um look apagado a ficar pensando que o look bonito “é demais para mim”.
Pressões sociais e culturais: Há também um pano de fundo mais amplo. Desde cedo, muitas mulheres aprendem que “não devem chamar atenção demais”. A pressão social para nos encaixarmos em padrões (ou seja, em grupos) faz com que quem se sente envergonhada de ser estilosa reprima sua identidade visual. Se crescer num ambiente em que elogiar conquistas era raro ou culpado, levamos esse padrão para a forma de nos vestir. Muitas vezes reparamos que, em grupos profissionais ou até de amizades, pouquíssimas mulheres ousam no estilo por esse medo de destoar.
Para ilustrar, vou contar um pouco da minha experiência: quando comecei no meu primeiro emprego formal, usei sempre roupas muito discretas (preto, cinza, sem nada chamativo). Lembro de deixar naquela festa de empresa o vestido colorido que eu adorava no guarda-roupa – “não era ocasião” era minha desculpa. Passei o evento pensando “todo mundo deve estar mais elegante que eu”. No final, percebi que me sentia triste por não expressar minha personalidade. Naquele momento ficou claro: era a síndrome impedindo que eu me mostrasse. Eu sentia que não merecia parecer confiante e, por isso, acabava me limitando.
Superando o medo de se vestir bem demais

Mas a boa notícia é que dá para mudar isso, um passo de cada vez. Em primeiro lugar, aprendi que vestir-se bem é uma forma de autocuidado, não de arrogância. A moda pode reforçar nossa confiança, mas ela não cria nosso valor – esse já existe dentro de nós. Como lembra um especialista em estilo, a moda deve ser vista como ferramenta para reforçar a confiança, não fonte única de autoestima. Ou seja: sentir-se bonita ajuda a dar um up momentâneo, mas nossa autoconfiança verdadeira vem do que pensamos de nós mesmas, e não só do espelho.
Com esse “insight” em mente, passei a experimentar pequenas mudanças. Aqui vão algumas ideias práticas que me ajudaram, e que podem ajudar você:
Registre suas conquistas: Pegue um caderno ou notas no celular e anote tudo que você faz bem, desde grandes desafios até pequenas vitórias do dia a dia. Pode ser um elogio no trabalho, um elogio de amigo sobre seu papo ou até o fato de ter tirado uns dias de folga. Segundo a Dra. Nina Ferreira, ter um diário de conquistas ajuda a combater o sentimento de fraude: quando a insegurança aparecer, abrimos esse diário e lembramos o que realmente provamos de bom para nós mesmas. Comigo, sempre que dúvidas invadiam, eu relia algo que eu havia escrito e pensava: “realmente, eu mereço aquele elogio / aquela oportunidade”. Isso traz uma dose de realidade contra o autocriticismo.
Comece com ousadias sutis: Não precisa trocar todo o armário de uma vez. Uma dica é usar um objeto de destaque por dia – uma camisa colorida, um brinco chamativo, um batom vibrante – e observar como se sente. A prática do site UAI Moda sugere justamente começar com peças discretas que reflitam sua personalidade e ir aumentando a ousadia gradualmente. Eu comecei usando um cachecol estampado para sentir mais cor na produção e, aos poucos, fui testando outros tons. Com o tempo, vi que as pessoas que me conhecem não me olhavam estranho; pelo contrário, recebi elogios sinceros. Cada pequeno passo reforçava a coragem de seguir experimentando.
Vista-se para você: Lembre-se de que a moda é uma forma de expressar quem você é, e não para agradar alguém. Como escreve um blog de moda: “suas peças precisam refletir o que você é, e te ajudar a expressar a sua individualidade. Dessa forma, é possível se sentir mais confiante e confortável com você mesma”. Então coloque aquela roupa que combina com o seu humor ou que representa sua essência. Se você ama cores, lembre-se de que vestir uma peça alegre não é ser exibida — é ser autêntica. Eu mesmo coloquei na minha cabeça: essa peça me faz sentir bem? Se sim, então ela serve a mim, não aos outros. Com esse pensamento, fui entendendo que o verdadeiro exagero seria esconder a minha personalidade.
Procure apoio (e limites): Conversar com pessoas de confiança pode ajudar a dimensionar os medos. Uma amiga de verdade, por exemplo, pode te lembrar das suas qualidades quando você duvidar delas. Se achar que o sentimento está muito intenso ou relacionado a traumas antigos, vale até buscar ajuda profissional. A Dra. Nina Ferreira recomenda terapia como forma de lidar com crenças centrais de desvalor. Terapia ou coaching podem ajudar a “mapear” a insegurança e distinguir o que é medo natural de algo bem enraizado. Mas atenção: não caia em promessas mágicas de estilos infalíveis. Cada pessoa é única, então use as dicas como inspiração, não como regra.
Mude um hábito de cada vez: Em vez de tentar ser completamente diferente da noite para o dia, escolha um comportamento de cada vez para alterar. A mesma Dra. Nina ensina que o ideal é “escolher o comportamento menos desafiador de mudar e vigiar esse comportamento diariamente, percebendo-o e fazendo diferente”. Ou seja, se hoje você anda sempre com camiseta básica, talvez só trocar uma vez por semana por uma blusa mais colorida seja o primeiro passo. Quando você conseguir isso, celebre e parta para o próximo desafio (usar um acessório chamativo, ousar no sapato, etc.). Cada pequena vitória fortalece a autoeficácia: você vai percebendo que dar esses “pulinhos na zona de conforto” não causa nenhum desastre e, pelo contrário, você se sente um pouquinho mais dona de si a cada dia.

Para fechar, deixo mais um relato pessoal: alguns meses atrás, eu decidi incorporar uma dessas mudanças. Comprei uma blusa vermelha vibrante (minha cor preferida!) e combinei com algo neutro. No começo senti aquele frio na barriga: “vai que alguém me acha exagerada!”. Mas respirei fundo e lembrei de todas as minhas “evidências” de competência (do caderno) e que aquela peça me deixava alegre. No dia, recebi elogios inesperados — e o mais importante: percebi que me senti mais confiante. Não foi milagre, mas foi um empurrãozinho da roupa ajudando meu humor. Depois disso, ficou mais fácil repetir o processo: cada vez que experimento uma cor ou um estilo novo e vou tranquila, reforço na minha mente que “sou digna de me sentir bem em qualquer roupa”.
Resumindo, o medo de se vestir “bem demais” muitas vezes é só um sintoma da Síndrome da Impostora, e não um reflexo da realidade. Ele faz você se esconder quando poderia brilhar. Mas lembre-se: ninguém espera que você seja perfeita. Ao tomar consciência dessas crenças negativas e enfrentar um passo de cada vez, é possível reconquistar a leveza de usar o que gosta. Eu, Ada, descobri que vestir-se bem também é um ato de amor próprio, e que mereço me sentir poderosa no meu visual – não importa o que os outros pensem. E você? Já sentiu essa insegurança ao escolher um look? Que peça ou cor faz você se sentir verdadeiramente você? Compartilhe sua experiência nos comentários; vamos juntas descobrir que somos dignas de usar qualquer roupa e brilhar.





