Eu sempre fui muito sonhadora. Mas, ao mesmo tempo, havia dentro de mim uma voz insistente que dizia: “você nunca vai conseguir”. Era como se existisse um segundinho em mim que desconfiava de todos os meus sonhos. Só depois entendi que essa sensação tem até nome: a psicologia chama de autossabotagem o fenômeno em que acabamos privando a nós mesmos de nossos próprios desejos. Eu vivia exatamente isso.
O sonho e a voz interior

Desde criança eu acreditava em muitas coisas incríveis que poderia fazer – escrever um livro, viajar pelo Brasil, liderar projetos. Mas, em paralelo, guardava frases negativas que ouvia por aí: “você não é boa nisso”, “isso não é pra você”. A cada sonho, adicionava uma ressalva: “mas e se eu fracassar?”. Aos poucos, essas vozes negativas ganharam força dentro de mim. Descobri que não sou a única: especialistas explicam que a autossabotagem está ligada a crenças limitantes e ao medo do fracasso.
Na escola e na faculdade, tive várias oportunidades que deixei passar. Por exemplo, durante o ensino médio havia um projeto de voluntariado que me interessava muito, mas desisti antes de me inscrever porque a vozinha dizia “você vai se expor e dar errado”. Anos depois, amigas contaram como aprenderam demais nesse projeto. Senti um aperto: eu mesma havia me privado de algo bom. Essa era a minha voz interior sabotadora falando mais alto.
Percebi também que muitos desses comportamentos negativos se tornaram hábitos silenciosos. Alguns sinais eram claros em mim:
Procrastinação crônica: frequentemente adiava tarefas importantes sem motivo.
Perfeccionismo paralisante: queria fazer tudo perfeito, então acabava nem começando.
Desistir cedo: abandonava projetos pessoais antes de concluí-los, mesmo quando ainda estava empolgada.
Esses padrões são bem descritos pela psicologia. Observadores apontam que procrastinar, ter perfeccionismo excessivo e desistir de projetos antes do fim são sinais frequentes de autossabotagem. Eu me via exatamente assim. Em várias situações, acabava perdendo prazos ou oportunidades por causa de mim mesma. Tentei desenvolver um projeto de arte digital sozinha: passei dias pesquisando técnicas, ajustando cada detalhe para que ficasse “perfeito”, mas cheguei a um ponto de exaustão em que não conseguia mais avançar.
Sem perceber, eu ignorava meus próprios esforços e até comemorava menos as conquistas do que deveria. De fato, a dificuldade de celebrar vitórias também é sintoma dessa autossabotagem interna. Sempre encontrava um motivo para não me dar crédito. Comemorava pouca coisa, porque a voz me dizia que era “sorte” ou que “não era nada demais”. Além disso, percebi que tendia a me colocar no papel da “coitadinha” que não tem sorte. Descobri que, inconscientemente, acabava voltando a comportamentos antigos por serem familiares: se já me via como vítima, evitava o sucesso. De fato, especialistas observam que pessoas acostumadas a ser vítimas tendem a regressar aos velhos hábitos de sofrimento, mesmo quando tudo começa a dar certo. Essa foi mais uma crença que precisei confrontar.
O encontro que mudou minha visão

Tudo começou a mudar numa tarde comum. Minha amiga Alice me convidou para uma roda de conversa entre mulheres sobre autoestima e desafios pessoais. Eu me senti receosa, mas aceitei ir com ela. Pensei: “Por que não ouvir o que elas têm a dizer?”.
No local, fiquei um pouco à parte, acompanhando a conversa da Alice e das outras mulheres. Muitas falavam de seus medos e defeitos. Foi quando uma senhora de 88 anos compartilhou algo que até hoje me guio como conselho valioso. Ela disse que, se pudesse voltar ao passado, mudaria apenas uma coisa: não dar ouvidos àquela vozinha negativa dentro de si. Contou que passou a vida ouvindo que “não conseguiria” e, por isso, deixava de ir atrás dos sonhos. Mas um dia resolveu ignorar aquele pensamento e seguiu seus desejos normalmente. Fiquei impressionada com a simplicidade da história dela: mesmo depois de tanta experiência, ela garantia que só descobriu quem realmente era depois que parou de se sabotar.
Na volta para casa, conversando com a Alice, eu tentava explicar o que sentia. Entre as pausas, repetia na cabeça: “não é tarde demais, não é tarde demais”. Aquelas palavras simples daquela senhora ecoavam: “nunca é tarde para buscar seu sonho”. Saí de lá com a cabeça cheia de reflexões: “Se esse sonho é meu, por que não lutar por ele, mesmo com medo?”. Pela primeira vez percebi que o maior obstáculo podia ser eu mesma.
Reconhecendo padrões e aprendendo a mudar

Após aquele encontro, comecei a pesquisar mais sobre autossabotagem. Descobri que psicólogos recomendam o autoconhecimento como primeiro passo: “O autoconhecimento é um passo fundamental, pois permite identificar crenças e comportamentos que limitam o crescimento”. Decidi então olhar para mim mesma sem julgamentos. Durante alguns dias, anotei cada vez que me sentia insegura ou desmotivada. Logo percebi um padrão: as crises de medo aconteciam justamente quando coisas boas estavam prestes a acontecer.
Foi um choque entender como eu criava o próprio bloqueio. Adorava planejar coisas ótimas, mas no momento exato em que precisava agir me deixava levar pela ideia de que não daria certo. Notei, por exemplo, que sempre que alguém me elogiava, sentia vontade de minimizar: pensava “não foi nada demais” ou “isso foi sorte”. Esses momentos me mostraram o ciclo vicioso descrito pela psicologia: a autocrítica exagerada e a dificuldade de reconhecer conquistas reforçam a sensação de incapacidade.
Admitir que eu mesma criava essas barreiras exigiu brutal honestidade. Coloquei em prática um conselho que li: sempre que a voz dizia “você não consegue”, eu parava e questionava: “Por que estou acreditando nisso?”. Descobri que muitas respostas vinham de um só lugar — um medo antigo de não corresponder às expectativas. Esse insight bateu com o que Carla Marçal escreveu: a autossabotagem ocorre porque alguma parte nossa não acredita que mereça o sucesso. Eu precisei admitir que ainda carregava certos pensamentos de inferioridade e não merecimento.
Seguindo adiante, li que um artigo sugeria “pequenos enfrentamentos” como estratégia: ou seja, desafiar gradualmente o que nos assusta em vez de fugir. Apliquei isso em ações cotidianas. Em vez de abandonar de vez a ideia de escrever um livro, comecei dedicando 10 minutos diários à escrita. Em vez de nunca fazer uma aula de dança por achar que levaria toco, resolvi ir apenas observar uma vez. Cada pequena afronta ao medo me ensinava: o simples ato de tentar não causava nenhum desastre.
Um passo decisivo foi reescrever meu diálogo interno. Em vez de murmurar críticas, passei a usar palavras gentis comigo mesma. Por exemplo, quando vinha um pensamento como “isso é muito difícil para você”, eu respondia: “Tudo bem não saber, eu posso aprender”. Descobri que esse tipo de diálogo interno positivo está associado a confiança e determinação na psicologia. De fato, um texto explicava que alguém com diálogo interno negativo tende a ser inseguro e medroso — e que a própria voz interior acaba intensificando esses medos. Entendi que eu fazia isso comigo, então comecei a mudar: ao invés de “não vou conseguir”, eu dizia “vou tentar e dar meu melhor”.
Pequenos passos e novas conquistas

Aos poucos, os resultados começaram a aparecer. Comecei a estabelecer metas realistas para mim. Em vez de dizer “vou me tornar outra pessoa da noite para o dia”, passei a pensar em etapas. Por exemplo, ao querer terminar de escrever um livro, meu objetivo diário passou a ser algo como “escrever uma página ou até um parágrafo”.
Para reforçar esse processo, adotei algumas atitudes práticas recomendadas por especialistas:
Registrar padrões negativos: anotar situações em que me sentia tentada a desistir, para entender o que as disparava.
Estabelecer metas alcançáveis: definir objetivos pequenos e específicos, para evitar frustrações desnecessárias.
Celebrar as pequenas vitórias: valorizar cada avanço, por menor que fosse. Comemorar quando eu cumpria uma tarefa que antes adiava me motivava a continuar.
Praticar o autocuidado: cuidar do meu descanso, alimentação e lazer. Percebi que quando estava cansada ou estressada, ficava muito mais vulnerável aos pensamentos negativos.
Buscar apoio de confiança: falar sobre meus planos e medos com amigos ou familiares. Até pensei em procurar um psicólogo, pois profissionais sugerem esse caminho quando necessário.

Comecei a comemorar cada pequena conquista. Se antes eu dizia apenas “ok, foi sorte”, agora celebrava sinceramente: “eu consegui!”. Cada vez que elogiava a mim mesma, percebia que a voz negativa ficava mais fraca. Um dia até falei para a Alice: “Você viu? Eu finalizei algo que sempre achei que não conseguiria!” – e foi um alívio perceber que ela comemorava comigo sem a menor surpresa. Esses pequenos triunfos foram minando minha insegurança.
Também notei mudança nos meus relacionamentos. Antes, sempre que alguém era gentil comigo, eu ficava desconfiada, esperando o pior. Às vezes até provocava uma briga boba para “confirmar” que alguém me deixaria. Agora tento conscientizar isso: aprendi que, como mostram estudos, muitas pessoas sabotam relações por medo de acabar se machucando. Hoje, se recebo um elogio ou um carinho, procuro apenas agradecer — em vez de achar que estou enganada.
Claro que o processo não foi linear. Sabia que recaídas eram normais. Um texto que li explica que, ao mudar hábitos antigos, é comum ter retrocessos, mas o importante é não desistir. Eu mesma tive dias em que a voz voltava a dizer “você não consegue”. Nessas horas, lembrava: “Ok, caí de novo, mas posso me levantar outra vez”. Levantar e seguir em frente era o que realmente importava.
Hoje, aos 24 anos, vejo que minha vida mudou bastante. Decidi terminar de escrever aquele primeiro capítulo que havia parado. Inscrevi-me num curso de pintura, algo que antes dizia ser “perda de tempo”. Para minha surpresa, adorei e terminei a primeira pintura do meu jeito desajeitado, mas tão minha. E até ganhei um pequeno prêmio em um concurso de redação no fim do ano. Cada uma dessas vitórias prova que era eu quem estava me impedindo antes.
Compreendi, de verdade, que nunca é tarde para buscar o que se quer, mesmo com medo. A voz que eu achava que era a “realidade” não passava de um barulho antigo que eu decidi silenciar. Ainda tenho dias inseguros, mas agora sei: quando a dúvida aparece, paro, respiro e lembro do caminho que já percorri. Com paciência e coragem, cada pequeno avanço já é uma grande vitória no nosso caminho. A voz pode até sussurrar às vezes, mas aprendi a enfrentá-la de forma diferente.
Nós todas podemos mais do que julgamos. Se você se identificou com minha história, lembre-se: enfrentar essa voz interior é um processo. Cada passo conta e mesmo tropeços não apagam o que já foi conquistado.
🚀 E você? Já reparou naquela voz que às vezes te impede de agir? Compartilhe nos comentários: qual pequeno passo você pode dar hoje em direção ao seu sonho?





