Desde pequena eu achava que falar era meu forte. Mas um dia, olhando para mim no espelho, percebi que quem eu mais precisava escutar era eu mesma – e não porque nunca soube falar, mas porque tinha dificuldade em ouvir de verdade o outro. Eu sempre me orgulhei de ser uma boa comunicadora, de ter as palavras certas. Mas levei um choque ao perceber que, enquanto a outra pessoa falava, eu não estava ouvindo; eu estava apenas montando minha resposta mental. Não era exatamente “escuta ativa” – era um roteiro mental pré-produzido.
A confissão da “má ouvinte”

Tudo começou naquela reunião de trabalho. Eu gesticulava, assentia com a cabeça, mesmo sem dar atenção plena. Quando alguém compartilhava um problema, eu já tinha meio que a solução pronta antes de ouvir todo o contexto. Por orgulho, achava que estava sendo eficiente. Mas a verdade me atingiu como um soco: por dentro, eu não estava ouvindo, só esperando a minha vez de falar. Foi humilhante admitir isso para mim mesma.
Era assim que funcionava para mim: eu me preparava, recarregava minha arma verbal. Enquanto o outro falava, eu mal pensava nas palavras dele – pensava no que eu ia dizer em seguida. Entrei naquela reunião cheia de certeza e saí me sentindo uma impostora. Eu tinha tentado ouvir, mas percebi que não sabia mesmo como. Esse foi meu grande erro inicial.
O aprendizado veio devagar. Nas conversas seguintes, tentei um experimento simples: anotar mentalmente cada ponto que a pessoa dizia, sem pensar no retorno imediato. De repente, muita informação surgia que eu antes ignorava. Descobri, por exemplo, que o problema de fulano não era só técnico: ele estava desanimado, sentia-se pouco valorizado. E dona Maria, em um jantar com amigas, confidenciou não querer papos superficiais: ela ansiava por empatia. Eu aprendia errando – e esses erros me mostravam que escutar vai muito além de concordar com um “uhum” automático.
Do eco ao espelho: aprendendo a ouvir de verdade

Escutar de verdade não é ser um eco que repete o que o outro disse. É ser um espelho. Uma metáfora muito simples me ajudou a entender: eco repete as palavras sem consciência, já um espelho reflete a imagem de quem fala, com todos os detalhes. No começo, achei essa ideia meio piegas, mas ela gruda. Quando consigo ficar em silêncio e olhar nos olhos, sinto que ofereço um espaço para a pessoa se enxergar ali. Ela não precisa de mim respondendo; precisa apenas de confirmação de que foi compreendida.
Isso não apareceu magicamente. Aprender a ouvir como um espelho foi, para mim, como aprender a andar de bicicleta de novo depois de adulta: eu caí várias vezes na tentação de interromper. Uma vez, durante um café da manhã, uma amiga desabafava sobre um divórcio difícil. De repente eu me peguei quase interrompendo: “Sabe, comigo aconteceu algo parecido…”. Parei. Uma ideia estúpida lampejou na minha mente: eu não era eu entrando no papo dela, eu tinha um papel a cumprir de ouvinte. Respirei fundo e foquei apenas no que ela dizia. Ela continuou, e ao fim do relato ela me agradeceu pela paciência. E disse: “Nossa, é a primeira vez na vida que alguém me escuta sem querer resolver meu problema na hora.”
Cada vez que praticava esse “espelhamento”, notava algo novo: não preciso dar opinião o tempo todo. Às vezes, o que quebra o silêncio não é útil. Foi um aprendizado lento: só depois de muitos tombos (conversas interrompidas, gente chateada comigo) é que entendi. Deixei de fazer da conversa um palco onde eu era protagonista. Hoje percebo quando o silêncio muda o tom da fala do outro: ele abre o jogo, fala mais do que esperava. Quando paramos de ser atos de natureza repetitivos (eco) e viramos presenças que refletem, a escuta deixa de ser tarefa e vira ato de empatia.
O poder do silêncio: esperando para ouvir de verdade

Silêncio. Ufa, que palavra estranha em uma conversa. Eu costumava ter agonia dele. Cada pausa, eu sentia vontade de encher aquele espaço com “uhum”, “sei…”, qualquer coisa. Pensava: se eu não falar agora, o outro vai achar que não me importo. Mas descobri algo curioso: quando você sustenta o silêncio por três segundos a mais, alguma mágica acontece, mas 3 segundos de silêncio fazem o outro repensar as palavras. Ele pode dizer o que realmente sente, não apenas o que ensaiou pra dizer.
Foi em uma conversa com minha mãe sobre planos de fim de semana. Eu ansiosa: “Mas por que não me contou antes?”, e ela, quieta. Fiquei apreensiva, com a cara pronta para perguntar o quê e o porquê. Acho que minha amiga [Note: ouviste do texto?] Mônica tem um conselho parecido: “Um Porquê antes de um Eu”. Então, em vez de sair contando minhas histórias, perguntei: “Como você se sentiu com isso?”. Ela demorou um segundo, respirou, e falou coisas que eu nem sabia que pensava. Eu aprendi que meu papel às vezes é apenas segurar a língua por mais tempo. Os três segundos de silêncio fizeram ela confiar e revelar camadas que eu não escutaria com quebra-paus na conversa.
Praticar o silêncio foi dolorido no início, como arrancar um curativo de uma vez. A gente queima batatas, derruba chá enquanto espera o outro falar! Mas, com tempo, virou hábito. Hoje, sempre que percebo o silêncio, em vez de encher espaço, eu observo o outro. Posso confirmar com um aceno, olhar atento – pronto. Percebi que é no vazio da minha ausência de palavras que as pessoas se completam. Como disse um dia uma amiga minha, “amiga, sabe o que é mais louco? A gente erra e aprende! É isso que é viver. Conversamos com pessoas diferentes e o silêncio de ouvir e entender é mais gostoso do que ter sempre algo a dizer, sabe?” (KKK, ela tem esse jeito de falar descontraído que eu adoro). É verdade.
“Um Porquê antes de um Eu”: um novo pacto de conversas

Depois de tanto errar e aprender, criei minha “regra de ouro” de conversa, que chamei de Um Porquê antes de um Eu. Antes, era quase automático: alguém dizia algo, eu respondia com algo sobre mim – meio inesperado. Agora, só depois de entender o sentimento ou a ideia dela é que conto minha parte. É um exercício de humildade: reconheço que o palco naquele instante é dela, não meu.
Por exemplo, certa vez um colega confidenciou que estava frustrado no emprego. Eu me segurei pra não falar “pois é, meu chefe me faz isso também”. Em vez disso, respirei e perguntei: “O que exatamente está te incomodando?”. Essa pergunta mudou o clima da conversa. Ele abriu o coração, falou de inseguranças que eu nem tinha imaginado. Quando chegou a hora de falar de mim, pude fazer uma comparação que realmente agregou. Nosso papo ficou mais profundo. Parecia que tinha dado um nó no ciclo vicioso de sempre. Ele até comentou no final: “Foi ótimo ser ouvido assim, ninguém nunca me perguntou tão a fundo antes.”
Assim, a cada conversa, eu treino meu “por que?” mental. Não é uma técnica de manual de autoajuda. É algo bem adaptável ao meu dia a dia. Em conversas do WhatsApp, por exemplo, antes de responder apressada, leio com calma e penso em uma pergunta que mostre que de fato entendi. Em encontros ao vivo, viso apoiar, não roubar os holofotes. Claro que às vezes erro de novo – ainda sou humana. Tem vez que esqueço da regra e solto um “comigo também foi assim” no meio do texto alheio. Nesses momentos, lembro da minha própria lição: quem sabe são as pessoas queridas me alertando com sinceridade, e aí volta tudo pra escuta.
Resistindo ao ritmo acelerado: ouvir em 1x como ato de amor

Vivemos na era do “tudo rápido”. Estamos tão acostumadas a ouvir áudios em 2x de velocidade, a pular vídeos que não prendem nos primeiros 5 segundos, que perdemos a paciência com o ritmo humano. Somos treinadas a consumir informações freneticamente. Nesse contexto, ouvir alguém em 1x, com pausas, suspiros e hesitações, tornou-se quase um ato de resistência – e um ato de amor.
Percebo isso sobretudo em grupos online. Antigamente, eu ficava irritada esperando respostas longas. “Que perda de tempo!”, pensava impaciente. Mas quantas vezes me entreguei de verdade em 5 segundos? Queria pronto, info rápida. Hoje tento um compromisso: ouvir em velocidade normal, por mais difícil que seja. Se preciso entender um relato longo (dos amigos, da família), vou ajustando meu mindset: “Ok, vou me dedicar a esse papo, ponto.” E juro: já colhi surpresas quando faço isso. A fala de alguém desacelera, fica mais rica. A emoção vem à tona com pausas, com tremor de voz, com silêncio – coisas que o “modo fast-forward” no smartphone não pegaria.
A experiência me ensinou: ouvir devagar me força a ter compaixão. Porque aí sim sinto o peso da história que a outra pessoa conta. Em uma noite recente, um amigo me falou dos medos dele. No meio do relato, senti vontade de me adiantar: eu queria confortá-lo rápido pra gente mudar de assunto. Em vez disso, deixei ele falar sem acelerar. Ele soluçou, contou memórias que achava que não tinha ninguém para ouvir. E é estranho: eu consegui ser realmente presente só porque abri mão de resolver tudo em um instante. Foi resistência à cultura de “caga-rápido” (cagando a pressa).
Não quer dizer que seja fácil. Às vezes, embarco no 2x da minha própria mente, querendo que a conversa termine logo. Nesses casos, respiro fundo, lembro do “eco vs espelho” ou da regra do “porquê antes do eu” – e volto à escuta consciente. O ponto é: saber ouvir em tempo real quebra barreiras. Não é maravilhoso ter alguém ouvindo você com atenção plena? Aí me pergunto: por que não dar isso também?
Lições em prática: suas próximas conversas

Aqui estão alguns passos simples que venho seguindo, e acho que podem ajudar quem quer reaprender a ouvir:
Segure a próxima resposta automática. Antes de dizer “Eu também…”, respire por três segundos e confirme silenciosamente o que foi dito. Muitas vezes a outra pessoa continua falando coisas que você precisa ouvir.
Faça mais perguntas genuínas. Em vez de simplesmente relatar experiências próprias, faça um “por quê?” cuidadoso. Perguntas como “Como você está lidando com isso?” ou “O que você sentiu quando…” mostram que você valoriza o desabafo.
Pratique o silêncio ativo. Use o silêncio como ferramenta positiva, não como vazio desconfortável. Segure-se antes de falar, demonstre com o olhar e o corpo que está ali para escutar – mesmo sem pronunciar uma palavra.
Abaixe a sua velocidade mental. Proponha-se ouvir toda a história de alguém em sua velocidade natural, sem acelerar. Isso pode ser em conversas pessoais ou ao escutar áudios/vídeos longos de conhecidos. Trate a velocidade humana como valiosa.
Todas essas dicas, para mim, funcionaram melhor quando testadas e ajustadas. Nem sempre dou conta perfeitamente. Mas cada conversa assim termina com uma sensação boa — e, às vezes, com novos aprendizados. No fim, é sobre isso: viver, errar, aprender e viver de novo.
E você? Que lições de escuta você traz de suas conversas? Nos comentários, conte uma experiência sua de como foi bom (ou desafiador) ouvir alguém de verdade. Isso me ajudará a continuar aprendendo junto com você. Então obrigada por ler até aqui – agora, me ouça um pouquinho: estou esperando sua história!





