Sempre me enxerguei como aquela amiga compreensiva e carinhosa. Eu adorava ouvir os desabafos de quem estava ao meu redor, oferecer conselhos sinceros e dar muitos abraços confortantes. Porém, no meio de tanta interação, percebi que nem sempre estava agindo com a leveza que eu queria para mim. Às vezes, saía de mim um tom ríspido ou uma reação exagerada que não condizia com a imagem de “amiga perfeita” que eu tinha de mim mesma. Foi só quando notei um clima estranho em algumas amizades que comecei a perceber algo errado.
Não queria me enxergar dessa forma: na minha cabeça, ser carinhosa e correta já era o suficiente. Mas notei algo esquisito – sorrisos forçados e olhares melancólicos começaram a aparecer ao meu redor. Cada pequena discussão suspensa no ar parecia me deixar inquieta. Eu evitava pensar nisso, mas não dava mais para ignorar.
Num desses momentos difíceis, senti meu coração pesar de verdade. Vi a pessoa querida se afastar e entendi que, de alguma forma, eu podia ser parte do problema. Fiquei lembrando do silêncio constrangedor depois de uma ligação com uma amiga, e em como aquela amiga parecia triste. Aí me perguntei: “Será que eu sou mesmo a pessoa que estou tentando ajudar?”. Aquela pergunta foi como um estalo que iluminou o que eu não queria enxergar. Foi o início da minha jornada de autoconsciência, e vou contar cada detalhe dela para você, amiga leitora.
Reconhecendo Comportamentos Tóxicos

Perceber que eu era tóxica não aconteceu de repente. Foi um processo lento de pequenas revelações no dia a dia. Não queria me enxergar dessa forma: na minha cabeça, ser carinhosa e correta já era o suficiente. Mas notei algo esquisito – sorrisos forçados e olhares melancólicos começaram a aparecer ao meu redor. Cada pequena discussão suspensa no ar parecia me deixar inquieta. Eu evitava pensar nisso, mas não dava mais para ignorar.
Falta de Respeito pelas Opiniões Alheias
Lembro da primeira vez que percebi isso. Eu estava numa conversa com uma amiga, tomando café numa tarde ensolarada, e ela expressou um ponto de vista diferente sobre um assunto importante. Em vez de ouvir, eu a interrompi e insisti que ela estava errada. Olhando para trás, vejo como isso foi arrogante e infantil. Eu não respeitava a opinião dela e reagia defensivamente. Naquele momento, mesmo sem perceber, eu me comportei de forma tóxica. Eu retruquei com minhas palavras afiadas, porque a minha insegurança me cegava. Naquele instante, os olhos dela ficaram marejados, mas eu não percebi. Eu continuei falando, fechando a porta para a opinião dela, sem nem notar o silêncio constrangedor ao nosso redor.
Depois dessa conversa, voltei para casa com um nó na garganta. Caminhei devagar pensando naquilo, sentindo o peso do que tinha dito. Cada passo me lembrava de que provavelmente não foi a primeira vez que agi assim. Decidi, então, prestar mais atenção ao que falava. A sensação de ter magoado alguém tão querida me acompanhou pelo resto do dia.
Achando que Eu Sempre Estava Certa
Havia situações em que eu simplesmente acreditava que estava certa o tempo todo. Tinha certeza de que as minhas ideias, meus gostos, minhas escolhas eram sempre as melhores. Quando alguém discordava, eu tomava isso como um ataque pessoal. Certa vez, no trabalho, debati com uma colega sobre a melhor forma de organizar um projeto. Eu tinha colorido minhas ideias de vermelho e rosa, achava que elas brilhavam mais que qualquer outra. Se o projeto fosse um quadro, eu era a artista que não permitia retoques na tela de discussão. No fim, percebi que eu estava pintando um universo só meu e esquecendo de incluir as cores dos outros. Respirei fundo naquela tarde, percebendo que estava tão preocupada em ter razão que não dava espaço para as ideias dela. Foi aí que entendi: só há vitória quando todos participam, não quando uma única voz domina a sala.
A Arrogância de “Estar Sempre Certa”
Existe um ditado que eu já ouvi: “a mulher está sempre certa”. Eu ria dessa frase, mas comecei a notar que muitas vezes eu achava que estava acima de qualquer erro. Era como se eu tivesse pintado um quadro de mim mesma com pincéis coloridos, deixando todo mundo fora da moldura. Mas a vida se encarregou de abrir essa moldura. Houve uma conversa com minha irmã mais nova, na sala da casa dos meus pais, que me deixou sem palavras. Ela estava chateada por causa de um desentendimento que tivemos, em que eu insistia que tinha razão e não deixava que ela se expressasse. Aquele nó no estômago subiu rápido quando percebi o estrago que causei. Naquele momento, entendi que meu orgulho criava muros invisíveis entre nós. Foi um choque perceber que o meu amor próprio vinha machucando quem eu mais amava.
Minha Jornada de Autoconhecimento

Quando olhei nos olhos da minha irmã e vi tristeza, percebi que precisava mudar. Esse foi o primeiro passo para a minha jornada de autoconhecimento. Entender que eu tinha falhas foi doloroso, mas também reconfortante, porque eu sabia que algo podia ser feito para melhorar. A partir daí, comecei a observar cada conversa, cada reação. Notei como pequenas atitudes cotidianas podiam machucar quem eu amava.
Comecei perguntando a mim mesma: “Ada, o que você faria se fosse aquela amiga, irmã ou colega de trabalho que você interrompeu ou magoou?” Sentia um aperto no peito ao imaginar como poderiam se sentir. Talvez aquele medo de perder pessoas importantes me motivasse a continuar assim, mas eu tinha que quebrar esse ciclo. Respirei fundo várias vezes ao dia e tentei ouvir mais, perguntar mais e falar menos. Cada vez que eu percebia que estava interrompendo alguém ou sendo rígida demais, eu parava e refletia profundamente sobre minhas atitudes, tentando entender o que eu estava sentindo naquele momento.
Exemplo da Vida Real: A Amiga no Café
Um dia, recebi uma mensagem de texto de uma amiga dizendo que precisava conversar pessoalmente. Nosso encontro aconteceu numa cafeteria aconchegante, com cheiro de café recém-passado e bolos de cenoura fresquinhos. Ela estava nervosa, mas reuniu coragem para falar o que sentia. Disse que, nas últimas conversas, eu sempre cortava o que ela dizia, sem deixá-la terminar. Foi um momento doloroso. Eu me vi ali, parada, com o cabelo iluminado pela luz suave de fim de tarde, envergonhada. As palavras dela ecoaram dentro de mim por dias. Saí da cafeteria sentindo meu peito pesado. O mundo ao meu redor pareceu desbotar no caminho de volta para casa. Não conseguia tirar da cabeça que tinha magoado alguém tão especial. Cada passo me lembrava das risadas que compartilhamos e eu odiava a ideia de prejudicar essa amizade. Na manhã seguinte, acordei decidida: precisava me desculpar e pedir ajuda para mudar. Enviei para ela uma mensagem pedindo perdão, com as mãos trêmulas, e senti um alívio inicial só de admitir meus erros.
Exemplo da Vida Real: No Trabalho com os Colegas
No trabalho, também enfrentei a sombra do meu comportamento. Eu estava animada com uma ideia nova para um projeto e, quando compartilhei com o grupo, senti que ninguém parecia tão empolgado quanto eu. Comecei a insistir de forma exagerada, falando mais alto, repetindo meus argumentos. Meus colegas pareciam hesitantes em expressar suas opiniões. Foi aí que um amigo de equipe, com um sorriso compreensivo, me chamou de lado e disse gentilmente que todos tinham pontos de vista diferentes que precisavam ser ouvidos e respeitados. Voltei para casa com um nó na garganta, refletindo sobre a conversa. No dia seguinte, me comprometi a mudar: passei a perguntar mais antes de falar, realmente ouvindo as ideias dos outros. Aquela experiência me ensinou que só minha empolgação não vale nada se não houver espaço para as cores que cada um traz.
Exemplo da Vida Real: Em Família
Durante um almoço de domingo na casa da minha avó, outro momento crítico aconteceu. Estávamos todos reunidos na varanda, observando o jardim florido, quando minha mãe comentou algo sobre minhas prioridades. Sem querer, levantei a voz defendendo minhas escolhas de forma brusca. Minha avó, sentada em uma cadeira de balanço azul claro, me olhou com tristeza. Fiquei em silêncio, olhando as flores amarelas do jardim. Naquele instante, meu coração disparou. Respirei fundo e pedi desculpas imediatamente, sentindo a brisa leve do fim de tarde no rosto. Minha avó me abraçou forte, passando a mão carinhosa nos meus cabelos. Naquele momento, entendi que o orgulho não valia nada perto do amor dela. Cada “desculpa” que eu murmurava foi recebido com um sorriso sincero, e ali aprendi que ceder espaço para a pessoa amada só fortalece o carinho entre nós.
Lições Aprendidas e Mudanças de Hábito

Perceber tudo isso foi apenas o começo. A partir daquele dia, decidi mudar de verdade. Não existia um manual de “como deixar de ser tóxica”, mas eu criei o meu próprio plano. Listei alguns passos simples que pude praticar todos os dias:
Ouvir de Verdade: Em vez de pensar na resposta enquanto outra pessoa fala, foco em absorver cada palavra. Eu me sentava e prestava atenção nos detalhes, mesmo se fossem pequenos, como o jeito que a amiga franzia a testa ou a entonação de cada frase. Eu repetia mentalmente tudo o que ouvia antes de responder, para ter certeza de que entendi bem. Assim, minhas amigas passaram a confiar mais em mim e a falar com mais tranquilidade.
Respirar e Pausar: Quando sentia raiva ou impaciência, respirava fundo três vezes antes de responder. Isso me ajudava a falar com mais calma, como um suspiro colorido acalmando uma tempestade interna. Aprendi que até a mente precisa de um momento de silêncio para retomar o controle. Percebi que, mesmo com o estômago apertado, manter a calma impedia que a conversa se tornasse uma discussão. Isso fez as pessoas se sentirem mais à vontade e falarem com sinceridade.
Pedir Desculpas Sinceras: Assim que notava que feri alguém, dizia “desculpa” olhando nos olhos da pessoa. Senti um alívio imediato de reconhecer meu erro e seguir em frente. Descobri que pedir perdão não diminui ninguém; pelo contrário, fortalece vínculos. Além disso, eu percebia que, ao me desculpar, um peso saía do meu peito, me deixando mais leve.
Praticar a Empatia: Tentava me colocar no lugar do outro, imaginando como ele se sentiria em cada situação. Era como trocar de roupa no fim do dia para sentir o caminho no corpo de outra pessoa. Cada vez que praticava a empatia, entendia melhor as dores e alegrias dos outros. Por exemplo, certa vez imaginei como minha irmã se sentia quando ela queria contar algo e eu estava ocupada, e isso mudou completamente o que eu estava prestes a dizer. Entender o sentimento dela fez com que eu falasse com mais compaixão.
Escolher as Palavras: Tento falar com delicadeza e clareza, mesmo quando estou chateada. Pensar antes de responder me ajuda a evitar palavras duras que podem machucar. Descobri que, com o tempo, até um simples pedido de desculpas era recebido de forma mais amena. Saber esperar um pouquinho para falar tornou cada conversa muito mais suave.
Jogar no Time: Em vez de querer ter sempre a última palavra, passei a celebrar as ideias dos outros. No trabalho, entre amigas ou em casa, tento ser um apoio, não um obstáculo. Comemorava pequenas vitórias alheias como se fossem minhas, e senti que aquela postura uniu ainda mais os relacionamentos ao meu redor. Passei a comemorar cada pequena vitória alheia e percebi como isso fazia todo mundo brilhar junto.
Praticar a Gratidão: Todos os dias, tento lembrar de agradecer pelas pequenas coisas que as pessoas fazem por mim. Perceber esses gestos me faz enxergar além de mim mesma e transforma minhas queixas em gratidão. Eu sentia um calor no peito a cada “obrigado” que dizia, e percebi que esse sentimento se espalhava ao meu redor.
Registrar Reflexões: Criei o hábito de anotar pensamentos e emoções num caderninho simples. Assim, consigo ver com clareza onde preciso melhorar. Não precisa de nada sofisticado – um bloco velho ou o aplicativo de notas do celular já ajuda muito. Com o tempo, percebi que, ao reler minhas anotações, eu descobria padrões de comportamento. Isso me ajudava a evitar os mesmos erros.
Tempo de Qualidade: Procuro passar momentos sem distrações com quem eu amo, como um café da tarde sem celular. Ouvir ativamente cada palavra fortalece nosso vínculo. Notei também como cada detalhe pequeno ganha mais importância quando nossa atenção está inteira.

Esses hábitos eram pequenos ajustes, mas tiveram um impacto gigante. Cada vez que pratiquei um deles, senti um alívio e uma conexão maior com quem estava ao meu redor. Minha vida começou a parecer menos cinza e mais colorida, como se eu tivesse lavado uma névoa dos meus olhos. Quando percebi meu reflexo sorrindo no espelho pela primeira vez em dias, entendi que estava no caminho certo.
Hoje eu me sinto mais leve e em paz nas minhas relações. Sinto que hoje me perdoo com mais facilidade, pois compreendo que errar é parte de ser humana e posso crescer com isso. A jornada de descobrir que eu era tóxica foi dolorosa, mas me transformou profundamente. Aprendi que reconhecer e assumir nossos erros não nos faz menos fortes; pelo contrário, nos torna mais verdadeiras e generosas. Cada dia que passa, me esforço para cultivar amor, respeito e paciência nas minhas interações. Sei que ainda tenho muito a melhorar, mas já vejo os frutos dessa mudança: risadas mais sinceras, abraços mais apertados e conexões mais genuínas.
Eu olho para trás e vejo como cada pequeno passo fez a diferença. Minhas amizades hoje são iluminadas por sorrisos fáceis; até mesmo os conflitos do passado ganham cor de compreensão. Em vez de cinza, minhas relações agora têm cores vibrantes: um jantar em família com gargalhadas sinceras, a conversa tranquila com amigas no final de tarde pintando o céu de laranja. A paz que senti ao melhorar pouco a pouco não tem preço. Sei que ainda tenho mais por onde crescer, mas cada “desculpa” e cada gesto gentil abriram espaço para o amor e o respeito florescerem.
Eu sigo acreditando no poder da mudança, e espero que você também. Se você leitora se identificou com alguma parte da minha história, saiba que não está sozinha. Nossas imperfeições fazem parte do que somos, mas a coragem de reconhecê-las abre espaço para a mudança. Que tal compartilhar aqui nos comentários alguma experiência sua? Conta para mim como foi o seu momento de autoconsciência ou que pequena atitude tem te ajudado a crescer. Você é parte dessa conversa e a sua voz importa. Que seu comentário seja um ponto de luz para outra leitora que passe pelo mesmo processo. Juntas somos mais fortes!





