Sabe aquela sensação estranha de culpa quando você para no meio do dia para simplesmente olhar pela janela ou fechar os olhos por um minuto, e imediatamente acha que está desperdiçando seu tempo? Eu já passei por isso diversas vezes. Nas minhas rotinas mais corridas, se eu me dava ao luxo de descansar, era como se alguém tivesse dito: “Acorda, Ada, o mundo não vai parar de girar!”
Sempre tive essa vozinha dizendo que se eu não estivesse produzindo algo a todo instante, eu era preguiçosa ou estava ficando para trás. Mas, aos poucos, fui percebendo que esse pensamento vinha de um lugar que não fazia sentido: a cultura da produtividade tóxica. Neste texto, quero compartilhar com você minha jornada e percepções sobre por que é tão difícil ficar sem fazer nada — e como podemos reaprender a realmente descansar.
A armadilha da cultura da produtividade tóxica

Cresci acreditando que a vida era uma corrida sem fim. Meus amigos estudavam enquanto os outros dormiam, meu chefe elogiava quem ficava até tarde no escritório, e eu acabei entrando nesse ritmo sem questionar. Durante anos, me orgulhava de trabalhar em feriados ou maratonar projetos sem parar. Eu achava que fazia parte ser responsável.
Mas aí eu cometi um erro que me custou caro. Numa semana de fim de semestre, precisei entregar um relatório importante. Em vez de cuidar do meu descanso, tomei três cafés seguidos e estudei a madrugada toda. No outro dia, nem consegui abrir os olhos direito e acabei entregando um trabalho confuso, cheio de erros bobos.
Foi nesse momento que a ficha caiu: não adianta “hypear” a produtividade se meu cérebro não acompanha. Eu pensei comigo mesma: “Cadê a minha qualidade de raciocínio? Cadê a minha criatividade?” O cansaço tomou conta e eu não aguentava mais nem um bom pensamento direito.
Esse episódio me ensinou que aquele discurso de “se os outros dormem, você trabalha” é uma armadilha. Descobri que não somos máquinas.
Quando eu estava esgotada, não conseguia nem saber onde tinha colocado o celular. Às vezes eu respondia às mensagens no piloto automático, sem nem lembrar o que estava escrevendo.
Percebi, então, que esse hábito tóxico de valorizar quem não para nos faz mal: alimenta uma ansiedade constante, como se estivéssemos sempre com alguém nos vigiando. Essa pressa em ser sempre produtiva me fazia sentir atrasada, mesmo quando eu realmente estava cuidando de tudo que precisava.
Na minha rotina, aprendi errando que trabalhar sem descanso não significa ganhar tempo — significa perder qualidade. Hoje, quando paro para tomar um café de verdade ou faço um lanche com calma, sinto que torno minhas horas de trabalho posteriores muito mais eficientes. Foi assim que percebi que descansar não é desperdiçar; é recarregar o que realmente importa. Sem esse intervalo, minha concentração despencava e os erros surgiam com mais facilidade. Reconhecer isso foi o primeiro passo para desapegar de tanta correria.
Hiperestimulação e sobrecarga mental no dia a dia

Outro obstáculo gigantesco é a quantidade absurda de estímulos que recebemos sem parar. Vivo vendo pessoas abrirem o celular achando que estão “descansando um pouco”. Eu mesma já fiz isso: chegar da rua, jogar as coisas na mesa e “relaxar” rolando o feed do Instagram. Mas você já notou que, no fim desse suposto descanso, a cabeça está ainda mais cheia de preocupações? Quase sempre eu terminei desconfortável, comparando meu dia com as fotos perfeitas que vi e pensando em todas as tarefas que ainda tinha para fazer.
Isso acontece porque navegar passivamente pelas redes sociais é uma maratona mental. O que parecia ser um descanso fácil, na verdade estava ativando áreas do meu cérebro ligadas ao estresse. Cada notificação ou post brilhando na tela me prendia como se fosse um jogo sem fim. Eu ficava alerta e meu corpo não entendia que era hora de relaxar de verdade. Quando, finalmente, desligava o celular, ainda estava como se estivesse acelerada.
Para mim, foi um aprendizado dolorido: descobri que ter o celular colado na mão não contava como “fazer nada”. Um dia, depois de passar horas vendo stories, fiquei exausta sem motivo aparente. Percebi que meu coração estava acelerado e eu mal consegui dormir. Foi aí que entendi que o cérebro precisa de pausas de verdade. Se eu não encontrasse uma forma de diminuir esses estímulos, nunca conseguiria relaxar.
Assim, comecei a buscar alternativas que não envolvessem telas. Peguei um livro que tenho na estante há meses, ou então coloquei um timer para ficar apenas olhando pela janela e sentindo o vento.
Claro, no início era difícil: meus dedos viviam no celular, e me flagrava preocupada com as notícias mais recentes ou checando quantas mensagens tinha no WhatsApp.
Com o tempo, porém, percebi que essas pequenas coisas faziam a cabeça esfriar.
Tentar descansar de verdade era, para mim, desconectar um pouco do mundo.
Medo do vazio e do autoconhecimento

Não é só a tecnologia que dificulta: o silêncio também pode ser assustador. Sempre que eu tentava parar de fazer algo e ficar sentada comigo mesma, percebia um vazio estranho surgindo. Durante anos, isso me incomodou. Eu tinha medo de ouvir os meus próprios pensamentos. Pensava: “E se algo ruim surgir nessa minha cabeça quando eu desconectar?”
Lembro de uma tarde chuvosa em que decidi fazer meditação guiada — sei que parece clichê, mas estou falando de uma tentativa real. Coloquei um guia de silêncio, fechei os olhos e, no começo, me senti bem. Mas depois de alguns minutos, começou aquele zumbido incômodo de preocupações: contas para pagar, e-mails atrasados, ideias de projetos que eu nunca tinha tirado do papel… Meu coração disparou e eu interrompi a meditação, achando que não funcionava comigo. Saí dali aliviada por ter “escapado” daquela angústia, mas também um pouco frustrada por não ter conseguido me concentrar.
Com o tempo, entendi que esse desconforto era parte do processo. Eu estava usando o barulho de tarefas como fuga para não enfrentar alguns medos internos. Afinal, se eu ficasse parada, teria que encarar sentimentos de ansiedade que muitas vezes empurramos para o canto. Por exemplo, percebi que evitava pensar em planos de longo prazo ou até em como me sentia em relação a amigos e família. Permanecer ocupada era uma maneira de manter tudo sob controle na superfície.
Mas o único resultado disso foi me deixar cada vez mais longe de mim mesma.
Aos poucos, decidi tentar de novo. Em vez de pedir para um app me guiar, simplesmente sentei no meu jardim e deixei a mente vagar.
No começo, era mesmo muito estranho, uma mistura de calma e de pequenas preocupações vindo à tona.
Porém, percebi algo importante: quando eu deixava o “barulho mental” vir à tona, acabava entendendo melhor o que realmente precisava ser resolvido.
Aquela ansiedade súbita perdia parte de seu poder quando eu parava para observá-la.
Aprendi que o silêncio não é vazio de propósito, mas um espaço de cura. A cada tentativa, fui descobrindo coisas sobre mim que jamais surgiriam na correria: ideias criativas, insights sobre o trabalho e até soluções simples que eu ignorava correndo de um lado para o outro. Esse encontro com o autoconhecimento me mostrou que é normal sentir medo no início, mas que é justamente nesse vazio aparente que a gente encontra respostas.
A necessidade biológica de reorganização

Pode parecer estranho, mas até nosso cérebro adora um ócio estratégico. Pense da seguinte forma: quando você vira insone estudando, o que sente? A cabeça ferve!
Agora pense em uma boa noite de sono ou em um cochilo depois do almoço. Não é comum acordar com uma clareza renovada para resolver um problema que antes parecia impossível?
Isso acontece porque, literalmente, o cérebro continua trabalhando em segundo plano quando estamos sem fazer nada.
Na minha experiência, isso ficou mais evidente quando comecei a me respeitar mais. Certa vez, depois de dias enchendo minha cabeça de informações para um projeto, as ideias simplesmente não saíam.
Foi aí que minha irmã sugeriu: “Toma um dia de folga. Vai caminhar, sem pensar nesse trabalho.” E deu certo!
No fim desse dia de descanso, quase por acaso, surgiu uma solução genial enquanto eu lavava a louça ouvindo jazz.
Percebi que meu cérebro havia reorganizado cada pedacinho daquele problema enquanto eu me preparava outra caneca de chá.
Agora entendo que esse tempo sem nada fazer é, na verdade, parte do meu trabalho mental. Durante o sono, por exemplo, as memórias que adquiri durante o dia são consolidadas — por isso dizem que a noite é amiga do aprendizado.
Mas não são só as grandes noites de sono que fazem isso: pausas curtas, respirações profundas e até momentos de lazer ajudam a parte do cérebro responsável pela tomada de decisões a recuperar energia.
É como se minha mente limpasse a lousa para o dia seguinte.
Por isso, aquelas horas de lazer, de contemplação ou de cochilo não devem ser vistas como preguiça, mas sim como uma estratégia de produtividade.
Como reaprender a descansar de verdade

Depois de entender tudo isso, o passo seguinte foi colocar em prática. Descobri que descansar não acontece por acaso — precisa de treino, paciência e estratégia. Aqui estão algumas coisas que funcionaram pra mim:
Reserve um tempo curto por dia para simplesmente não fazer nada, sem nada para ler ou ver. Comece com cinco minutos sem celular na mão, apenas respirando fundo ou olhando pela janela, e depois aumente aos poucos; percebi que mesmo esse tempinho já dava uma sensação boa de pausa.
Crie um ritual de transição. Quando chegar a hora de dar uma pausa, faça algo específico para sinalizar o descanso: desligue o computador, levante de onde está sentado e tome um copo d’água, por exemplo. Esse ritual simples avisa ao seu corpo que agora é hora de pausa.
Desconecte de vez em quando. Deixe o celular no silencioso ou em outro cômodo quando for descansar. Sem notificações pipocando, sinto-me muito mais calma.
Escolha atividades tranquilas, como ouvir música suave, tomar um café observando o céu, brincar com um pet ou cuidar das plantas. Eu percebi que acender um incenso ou saborear um chocolate lentamente faz toda a diferença nesses momentos de pausa. O importante é que não exijam esforço mental pesado.
Vá para a natureza. Sempre que possível, dê uma volta num parque, sinta o sol no rosto ou escute o canto dos pássaros. Tomar um ar fresco faz milagres para a mente!
Pratique gentileza consigo mesma. Quando a culpa bater, resista! Diga para você mesma algo como: “Eu mereço esse descanso, assim como qualquer outra pessoa”. Pode parecer simples, mas mudar essa conversa interna foi libertador para mim.
Gradualmente, faça o intervalo durar mais. Uma vez que você acostuma com pequenos momentos, dá para passar de poucos minutos para meia hora, e, de repente, sem perceber, você pode ficar horas descansando e de bem consigo mesma.
Experimente meditação breve ou técnicas de respiração. Não precisa ser complicado: feche os olhos e faça respirações profundas (por exemplo, inspirando contando até quatro, segurando por quatro e soltando por quatro). No começo pode ser difícil, mas essa prática ensina sua mente a ficar quieta por alguns instantes.
No fim das contas, descobrir que ficar sem fazer nada era tão complicado para mim foi um sinal de que eu vinha precisando aprender algo importante: como cuidar melhor de mim mesma. Aceitei que esse é um aprendizado contínuo. Não existe um descanso perfeito, mas sim práticas que a gente vai ajustando ao longo da vida.
Se eu pudesse te deixar com uma ideia para levar daqui, seria: permita-se desconectar, aos poucos. Não tenha medo de experimentar ou de falhar no começo. Eu ainda às vezes me sinto culpada por ficar parada, mas estou cada vez mais consciente de que isso também é um jeito de cuidar da minha saúde mental. E você? Como tem aprendido a tirar um tempo de verdade para si? Deixe um comentário contando sua experiência — vamos continuar essa conversa. Você merece esse momento de paz.





