Pura Vida: O que a simplicidade pode ensinar sobre viver com menos pressa e mais presença

Você já se pegou com a agenda cheia e a sensação de que a sua vida está acontecendo rápido demais para você conseguir vivê-la?

Não é cansaço de fazer pouco. É o cansaço específico de fazer muito — e mesmo assim sentir que algo está escapando entre uma tarefa e outra. Que você está presente em tudo e em nada ao mesmo tempo. Que o domingo chega e você não sabe muito bem o que aconteceu com a semana toda.

Eu conheço essa sensação. Não de ouvir falar — de dentro.

Esse artigo não é sobre Costa Rica, sobre turismo ou sobre você precisar viver de um jeito específico. É sobre uma expressão que, quando me deparei com ela, me fez parar e pensar no que eu estava, de fato, construindo com os meus dias: Pura Vida. Literalmente, vida pura. O modo como os costarriquenhos respondem ao “como você está?” — não com uma lista de conquistas ou reclamações, mas com a afirmação simples de que a vida, com tudo o que ela tem, é boa.

E me perguntei: quantas vezes na minha vida eu me permito simplesmente dizer isso?


Por que uma vida cheia não é necessariamente uma vida significativa

Existe uma ilusão que a gente absorve tão cedo que nem percebe mais: a de que quanto mais compromissos, mais você está aproveitando. Agenda cheia = vida ativa = mulher que está indo bem.

O problema é que agenda cheia e vida significativa são coisas completamente diferentes — e quando as confundimos, passamos anos correndo para chegar em algum lugar e esquecemos de perceber onde estamos.

Uma vida cheia pode ter dezenas de compromissos por semana e deixar você exausta sem nenhuma lembrança real. Uma vida simples pode ter bem menos itens na lista e te deixar com a sensação clara de que você esteve presente em cada um deles.

Essa não é uma distinção pequena. É a diferença entre atravessar a própria vida e habitá-la.

O que o Pura Vida propõe — e que eu precisei aprender da forma mais mundana possível, num domingo chuvoso sozinha em casa — é que uma vida simples não é uma vida pequena. É uma vida que cabe em você. Uma vida em que você aparece de verdade.


O domingo chuvoso de 2023 — e a pergunta que mudou minha relação com a pressa

Eu, Ada, acreditava que quanto mais cheia a minha agenda, mais eu estava vivendo. Trabalho de CLT, as coisas de casa, as responsabilidades que não param porque você mora sozinha (e acredita que a bagunça acontece mesmo assim — kkkk), os projetos pessoais que existiam em paralelo com tudo isso. Eu vivia na pressa. Sempre com aquela sensação de que tinha mais uma coisa pra resolver antes de poder descansar — e o descanso nunca chegava porque sempre tinha mais uma coisa.

O erro que me custou caro — e que eu não quero que você cometa amiga — foi confundir movimento com presença. Eu me movia muito. Eu estava presente em quase nada.

Tinha chegado num ponto em que o simples ato de não ter nada pra fazer me causava desconforto. Silêncio virava ansiedade. Tarde livre virava lista mental. Domingo virava planejamento da semana seguinte. Não sabia mais como simplesmente estar — sem produzir, resolver ou avançar alguma coisa.

A ficha caiu quando eu percebi que estava tratando o meu próprio tempo como mais uma tarefa da minha lista de afazeres — algo a ser gerenciado com eficiência, não vivido com presença.

O estalo veio de um jeito inesperado: foi numa noite de domingo chuvoso de 2023. Estava em casa sozinha — a bagunça no fundo do quarto, o trabalho que tinha sido exaustivo na semana, mais uma lista de coisas que eu deveria ter feito e não fiz. E então, sem planejamento nenhum, me peguei com uma pergunta muito simples e muito incômoda na cabeça: será que a vida precisa realmente dessa pressa toda?

E veio uma segunda pergunta, mais honesta ainda: se eu morrer hoje, o mundo vai continuar nesse mesmo estresse e nessa mesma pressa — sem mim.

Fiquei quieta com isso por um tempo. Que a pressa que eu estava carregando não era minha. Era um padrão que eu tinha absorvido sem questionar — e que continuaria existindo com ou sem a minha participação obsessiva nele.

Decidi dar um passo atrás e simplificar.

Não jogando tudo fora. Não pedindo demissão nem mudando de cidade. O que mudou foi menor e mais profundo: decidi começar a perguntar, antes de adicionar qualquer coisa nova à minha agenda, se aquilo estava preenchendo a minha vida ou apenas ocupando espaço nela.

Eu precisei dizer um “não” audacioso à crença de que estar sempre ocupada era o mesmo que estar bem — para finalmente dizer “sim” a momentos que não produziam nada, mas me devolviam algo que eu não sabia que estava perdendo: a sensação de que o tempo me pertencia.

O medo inicial foi real. Quando você passa anos correndo, parar parece negligência. Como se você fosse ficar pra trás. Mas descobri que o que fica pra trás quando você para de correr não é a sua vida. É só o barulho.

Hoje, o meu inegociável é este: antes de aceitar qualquer compromisso novo — profissional ou pessoal —, me faço uma pergunta simples: isso vai me preencher ou só vai me ocupar? Se a resposta for a segunda, eu recuso com leveza e sem culpa.

Na minha rotina de hoje, isso se traduz numa agenda com mais espaço entre as coisas — não porque faço menos, mas porque parei de tratar o espaço como desperdício. O espaço é onde a vida acontece.


O que o Pura Vida ensina — e o que podemos aplicar aqui, agora, sem ir a lugar nenhum

Pura Vida não é uma frase turística. É uma filosofia cotidiana que responde ao “como você está?” com a mesma leveza quando as coisas estão ótimas e quando estão difíceis. É uma forma de dizer: a vida, como ela é, ainda vale.

O que me toca nesse conceito não é a ideia de que tudo está bem — é a ideia de que você pode escolher onde coloca o seu peso. Que nem tudo que acontece ao redor precisa carregar você junto. Que existe uma diferença entre participar da vida e ser arrastada por ela.

E isso não exige mudança de país. Exige mudança de perspectiva — que começa nas escolhas pequenas e diárias. Já escrevi sobre por que você não está atrasada e o que os ciclos da natureza ensinam sobre o seu próprio tempo — e o que ficou daquele processo foi isso: viver com menos pressa não é ficar pra trás. É parar de correr num ritmo que não é seu.


Como começar a viver com menos pressa e mais presença — na prática

Não é sobre reescrever a rotina do zero. É sobre perguntas pequenas e honestas que mudam o que você aceita e o que você recusa.

1. Antes de adicionar, pergunte se vai preencher ou ocupar. Compromisso novo, tarefa nova, responsabilidade nova — a pergunta não é “consigo encaixar?” mas “isso merece meu tempo?” São perguntas completamente diferentes.

2. Crie um momento por dia que não precisa ser produtivo. Só um. Uma refeição comida sem tela. Cinco minutos na janela sem celular na mão. Um café que você toma sentada em vez de andar pela casa fazendo outra coisa. Isso conecta diretamente com o que já abordei sobre cozinhar para si como ato de autocuidado — o prazer está em estar presente, não em ter feito algo impressionante.

3. Observe quando “quero” virou “preciso”. Tem um momento sutil em que o desejo se transforma em obrigação — e você nem percebe a hora que isso aconteceu. Queria ter mais projetos. Agora “precisa.” Queria manter contato com todo mundo. Agora “precisa.” Mapear onde isso aconteceu na sua vida é o começo de entender o que pode ser devolvido à categoria de escolha.

4. Caminhe sem transformar a caminhada em compromisso. Sem meta de passos, sem podcast educativo, sem missão de “aproveitar o tempo.” Só caminhar. Já escrevi sobre o flâneur feminino e o que acontece quando você caminha sem destino e para de ter pressa — e o que descobri foi que a caminhada que não serve pra nada às vezes serve mais do que todas as outras.

5. Pare de preencher todo silêncio. Podcast quando acorda, música quando cozinha, vídeo quando come, tela quando deita. O silêncio desconfortável que sobra quando você tira isso tudo tem muita informação sobre como você está de verdade — e sobre o que você tem evitado ouvir.

6. Pratique o não sem parecer que precisa de motivo maior. “Não posso, mas obrigada” é uma frase completa. Não precisa de desculpa, de explicação, de lista de razões válidas. E aprendi que quando você para de se justificar por dizer não, o outro lado raramente desmonta. Quem respeita você respeita o não.


Vida cheia vs. vida simples — a diferença que ninguém mede

O que observarVida cheiaVida simples
Como a agenda pareceSempre ocupada, pouco espaçoCom espaço intencional entre as coisas
Como o silêncio pareceIncômodo — algo pra preencher logoFamiliar — um momento que pertence a você
Como você decide o que entra na rotina“Consigo encaixar?”“Merece meu tempo?”
Como você se sente ao final do domingoCansada sem saber muito bem por quêCom alguma lembrança real do que aconteceu
O que mede o valor do diaQuanto você produziuSe você esteve presente no que importa

Checklist: como está a sua relação com a pressa agora?

Responde com honestidade — sem julgamento:

☐ Você consegue ficar em silêncio por mais de dez minutos sem preencher com algo?

☐ Tem algum compromisso fixo na sua agenda que você mantém por hábito ou culpa — não porque quer?

☐ Você consegue dizer não para algo sem sentir que precisa se justificar com uma razão boa o suficiente?

☐ Quando foi a última vez que você teve um momento genuinamente sem propósito — e não sentiu culpa por isso?

☐ Você consegue distinguir o que você quer fazer do que você sente que precisa fazer pra não decepcionar alguém?

☐ A última vez que a vida pareceu leve — você estava com muita coisa na agenda ou com poucas coisas escolhidas de verdade?


Pura Vida não é uma filosofia sobre ter uma vida fácil. É sobre parar de tratar a própria vida como um projeto de gerenciamento e começar a habitá-la — com o que ela tem, no ritmo que ela pede, sem precisar transformar cada momento em prova de que você está aproveitando.

Você não precisa ir a lugar nenhum pra entender isso. Às vezes basta uma noite chuvosa de domingo, a bagunça no fundo do quarto e uma pergunta que aparece sem avisar. Já escrevi sobre Ubuntu e por que você não precisa dar conta de tudo sozinha — e o que ficou foi isso: viver com mais leveza não é enfraquecer. É parar de carregar peso que nunca foi seu pra começar.

Me conta nos comentários: tem alguma coisa na sua agenda agora que está ocupando espaço sem realmente preencher a sua vida — e que você já sabia disso antes de ler esse artigo?

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