Cozinhar para Si: Por Que Preparar a Própria Comida Pode Ser um Ato de Autocuidado

Quando foi a última vez que você preparou algo pensando só no seu gosto?

Não no que era rápido. Não no que tinha na geladeira que precisava ser usado. Não no que o resto da família ia gostar. No que você queria comer — você, especificamente, naquele momento — e fez isso acontecer com as próprias mãos.

Pra muitas mulheres, essa pergunta tem uma resposta que demora a chegar. Porque a nossa relação com a cozinha costuma ser de resolução, não de presença. A gente resolve o café da manhã, resolve o almoço, resolve o jantar — e segue. Comer virou mais um item na lista de coisas a cumprir antes do próximo compromisso. Às vezes a gente nem lembra direito o que comeu três horas atrás.

Esse artigo não é sobre te convencer a virar uma excelente cozinheira. Não é sobre receitas elaboradas ou alimentação impecável. E definitivamente não é sobre mais uma coisa que você precisa fazer direito pra se sentir bem consigo mesma.

É sobre uma ideia bem mais simples — e bem mais bonita do que parece à primeira vista: que quando você prepara algo para si com atenção, mesmo que seja algo pequeno e imperfeito, você para de apenas resolver uma refeição e começa a participar ativamente do próprio cuidado.

E às vezes é exatamente isso que estava faltando.


Por que cozinhar para si pode ser um ato de cuidado — e quando isso não é sobre a cozinha

Antes de qualquer coisa, preciso nomear algo que acho importante.

Não existe uma lei que diga que toda mulher precisa gostar de cozinhar. Tem muita gente que não gosta, e tudo bem. Uma mulher que odeia a cozinha não está falhando no autocuidado — está sendo honesta sobre os seus gostos. E isso também é soberania.

O que estou falando aqui é diferente: é sobre o que acontece quando você faz algo para si — na cozinha ou não — sem delegar, sem pedir que outra pessoa resolva primeiro, sem esperar ter tempo “de verdade.” Quando você abre o armário, encontra ingredientes e decide, sem nenhuma razão especial além de querer, fazer alguma coisa que você gosta.

Existe uma pergunta silenciosa que muitas mulheres carregam sem nomear: “Por que eu consigo fazer tanta coisa pelos outros, mas tenho dificuldade de parar e cuidar de mim?”

E parte da resposta está numa crença que a gente aprende tão cedo que nem percebe mais: que preparar algo para si, quando tem outras coisas pra resolver, é indulgência. Que o próprio paladar, o próprio desejo, o próprio prazer na comida podem esperar.

Cuidar de si precisa sair do discurso e entrar nas mãos. E a cozinha — quando você escolhe estar nela por você, não por obrigação — pode ser um dos lugares onde isso acontece de forma muito concreta.


O bolo que virou carvão, o que salvou uma tarde de cólica — e o que os dois me ensinaram

Eu, Ada, acreditava que quanto mais prática e eficiente a minha relação com a comida, melhor eu estava sendo sobre autocuidado. Resolver a refeição rapidamente era resolver o problema. Deliveries, coisas práticas, o básico que sustentava sem exigir tempo.

O erro que me custou caro — e que eu não quero que você cometa — foi confundir praticidade com presença. Eu me alimentava. Mas raramente eu comia de verdade — sentada, presente, com algo feito pensando no que eu queria e não no que era mais rápido.

Tinha chegado num ponto em que a cozinha era pra quando alguém fosse visitar, ou pro final de semana quando “houvesse tempo.” Pra mim, do cotidiano, qualquer coisa resolvia. E eu assistia MasterChef com uma certa inveja feliz — aquelas criações todas lindas — enquanto comia qualquer coisa que tivesse aberto. (A comida ficava deliciosa mentalmente. Na prática, era básico mesmo.)

A ficha caiu quando eu percebi que estava tratando a minha própria alimentação como mais uma tarefa da minha lista de afazeres — algo pra ser resolvido, não vivido. Que eu me lembrava do gosto do que eu tinha pedido delivery semanas antes, mas não me lembrava do que tinha feito pra mim na cozinha porque não tinha feito nada. Era sempre pra outro, ou era delivery, ou era qualquer coisa.

O estalo veio de um jeito inesperado — e bem indigno, devo admitir.

Foi numa tarde de sábado com aquela cólica pesada que não deixa você fazer nada direito. Eu estava no sofá, desconfortável, e do nada veio um desejo muito específico: bolo de chocolate. Não qualquer bolo amiga. Bolo de chocolate de verdade, feito em casa, com aquele cheiro que toma a cozinha inteira.

Eu podia ter pedido por aplicativo. Era mais fácil. Mas alguma coisa — talvez a cólica, talvez o cansaço de sempre resolver no automático — me fez levantar, abrir o armário e procurar o que tinha.

Tinha tudo. Mais ou menos kkk. Abri um vídeo no celular, coloquei sobre o balcão e fui fazendo igual. Eu não sou especialista em confeitaria — e aliás, tenho uma história épica de um bolo que saiu do forno mais carvão do que bolo, aquela coisa ficou preta de jeito que eu nem sabia que era possível numa receita simples. (Descanse em paz, bolo número um😂 .) Então dessa vez eu segui o vídeo bem de perto e com muito mais humildade.

Saiu. E ficou bom demais.

Não esperei esfriar. Cortei uma fatia ainda quente, sentei no meu mini sofá, liguei meu dorama e comi com aquela satisfação específica de quando você fez a coisa com as próprias mãos. Não era um bolo perfeito. Era meu. E fazia uma diferença que eu não soube explicar naquele momento, mas senti no corpo inteiro.

Decidi dar um passo atrás e simplificar.

Não decidi me tornar uma cozinheira sofisticada. Não criei uma rotina elaborada de meal prep com planilha e tudo. O que decidi foi menor e mais honesto: que de vez em quando, quando der vontade e quando o tempo permitir, eu ia fazer algo pra mim. Não obrigatoriamente todo dia, não necessariamente perfeito — mas feito com intenção de me cuidar.

Eu precisei dizer um “não” audacioso à ideia de que preparar comida para si é frescura ou perda de tempo — para finalmente dizer “sim” ao prazer simples e real de ter feito algo com as próprias mãos e comer como alguém que também merece ser cuidada.

Hoje, o meu inegociável é este: nos finais de semana, quando consigo me afastar um pouco das telas e da correria da semana, faço pelo menos uma coisa na cozinha por escolha, não por obrigação. Pode ser simples — um chá feito com atenção, uma omelete com o que eu gosto, um bolo seguindo vídeo sem vergonha nenhuma. O critério não é a dificuldade. É a intenção.

Na minha rotina de hoje, isso se traduz num momento da semana que é meu de um jeito diferente dos outros — não porque afastei o celular ou meditei, mas porque fiz algo concreto pra mim mesma, com as mãos, e senti isso no corpo de um jeito que nenhum delivery entrega igual.


O que acontece quando você começa a fazer pequenas coisas na cozinha por você mesma

Não é sobre a receita. É sobre o que o ato de preparar produz — na atenção, no prazer, na sensação de participar da própria vida.

Algumas coisas que percebi na prática — e que podem ajudar você a começar sem se pressionar:

1. Escolha o que você quer comer antes de abrir o aplicativo. Antes de pedir delivery no automático, para um segundo e pergunta: o que eu teria vontade de comer se não dependesse de ninguém mais? Às vezes a resposta é simples demais — um ovo mexido com o tempero que você gosta, uma fruta com mel, um caldo. Simples não significa menos valioso.

2. Faça alguma coisa seguindo vídeo, sem vergonha. Ninguém nasce sabendo cozinhar. Eu faço isso regularmente — abro o vídeo, coloco no balcão e sigo passo a passo. Não tem nada de menos nisso. A cozinha não precisa de performance, precisa de presença.

3. Cozinhe sem pressa quando puder. Tem uma diferença real entre preparar comida correndo e preparar comida com tempo. Quando você tem vinte minutos, corte os ingredientes devagar. Sinta o cheiro. Ouça o som da frigideira. Esses detalhes sensoriais são o que transforma uma tarefa em experiência.

4. Coma sentada, sem tela, pelo menos uma vez por semana. Só uma. Não todas as refeições, não como regra rígida. Uma vez, com presença. Você vai perceber que a comida tem mais gosto — e que você come menos correndo quando realmente está lá.

5. Não descarte as tentativas que deram errado. Meu bolo carvão foi real. E não me fez parar de tentar — só me fez seguir o vídeo melhor da próxima vez. Errar na cozinha é parte do processo. Não é fracasso no autocuidado.

6. Permita-se comer algo gostoso sem justificar o porquê. Chocolate no sábado à tarde porque você estava com cólica e com vontade não precisa de mais nenhuma explicação pra existir. Já escrevi sobre o lanche da tarde que me salvou da compulsão e três receitas rápidas e afetivas da minha cozinha — e o que ficou foi isso: quando você começa a respeitar o que o seu corpo pede com atenção, a relação com a comida vai ficando mais tranquila.


Comer no automático vs. preparar com presença — a diferença de dentro pra fora

Não é sobre o que você come. É sobre como você se relaciona com o ato de se alimentar.

O que observarComer no automáticoPreparar com presença
A atençãoVocê come enquanto faz outra coisaVocê está presente no ato de comer
A escolhaO que foi mais rápido de resolverO que você tinha vontade de comer
O processoVocê pula direto pro resultadoVocê participa do preparo — mesmo que seja simples
A sensação depoisVocê nem lembra muito bem o que comeuVocê lembra — e há uma satisfação diferente
A relação com o tempoComer é tirar a fome logoComer é um momento que pertence a você

Checklist: como está a sua presença na própria alimentação agora?

Responde isso com você mesma — sem julgamento, com curiosidade:

☐ Você consegue lembrar o que comeu no almoço de anteontem — ou foi no automático mesmo?

☐ Quando foi a última vez que você preparou algo com o seu gosto específico em mente, não com o que era mais prático?

☐ Você tem pelo menos um momento na semana em que come sentada, sem tela e sem pressa?

☐ Existe alguma coisa simples que você gostaria de saber fazer na cozinha — mas ainda não tentou porque parece complicado demais?

☐ Você permite a si mesma comer algo gostoso sem precisar justificar o porquê?

☐ A última vez que você fez algo na cozinha por você mesma — não por obrigação, não pra outra pessoa — você consegue lembrar quando foi?

A última pergunta costuma ser a mais reveladora. Não porque indica algo errado, mas porque revela o quanto você está presente no seu próprio cuidado — ou o quanto esse cuidado foi ficando pra depois, esperando condições melhores que nunca chegam.

Já escrevi sobre como reequilibrei minha energia do café ao jantar — e o que aprendi foi que o que você come ao longo do dia molda muito mais do que a saúde física. Molda o humor, a disposição, o quanto você sente que está ou não participando da própria rotina.


Às vezes, autocuidado não parece um spa, uma viagem ou uma grande mudança de vida.

Às vezes parece simplesmente preparar uma comida que você gosta — mesmo que seja seguindo um vídeo, mesmo que a primeira tentativa vire carvão, mesmo que seja num sábado de cólica e mini sofá — e sentar para comer como alguém que também merece ser cuidada.

Você não precisa ser a chef. Não precisa ter uma cozinha bonita, ingredientes orgânicos ou receitas elaboradas. Você precisa, vez ou outra, fazer algo com as mãos pensando no que você quer — e perceber o quanto esse gesto simples diz “eu me importo comigo.” Já escrevi sobre a lição que aprendi com o ritual do chá sobre parar de viver no piloto automático — e o que ficou foi isso: os rituais mais simples têm o maior poder de ancoragem, exatamente porque não pedem nada além da sua presença.

Me conta nos comentários: tem alguma coisa que você gostaria de fazer na cozinha para si mesma — e que ainda não tentou porque parece que não vale o esforço?

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