Eu estava na casa da Alice. Era um daqueles dias de visita sem hora marcada — cheguei, dei boa tarde pra Tia Lucy (a mãe dela), que estava sentada fazendo a unha com uma amiga. Dei uma de educada e fui sentar no canto esperando a Alice chegar da rua.
Ficou aquela conversa de fundo entre as duas, o cheiro de acetona no ar, eu meio que olhando sem querer. E então percebi: Tia Lucy terminou uma etapa da pedicure e não foi para as cutículas. Passou para o esmalte direto.
Fiquei achando que ela tinha esquecido. Esperei um pouco. Confirmei que não estava previsto. E perguntei — sem mal, totalmente inocente da minha parte:
“Tia Lucy, a senhora não vai tirar as cutículas?”
Ela parou, me olhou, e disse uma coisa que ficou.
“Filha, pode não tirar. Pode entrar bactéria e dar infecção. Prefiro hidratar e deixar.”
Naquele momento eu não sabia o que fazer com essa informação. Tinha passado a vida inteira vendo minha mãe tirar cutícula, minhas tias, minhas amigas. Eu tirava. Era parte do ritual de cuidar dos pés, automático como esmaltar depois. A ideia de que aquilo pudesse ser opcional — ou pior, potencialmente problemático — nunca havia me passado pela cabeça.
Mas a Tia Lucy tinha uns cinquenta e poucos anos, unhas lindas, pés bem cuidados. Não parecia que estava deixando nada de fora.
Fui pesquisar quando cheguei em casa.
Por que a cutícula existe — e o que acontece quando você remove ela

A cutícula tem uma função que a maioria das pessoas desconhece porque ninguém explica: ela é uma barreira de proteção entre o exterior e a matriz da unha, que é o tecido de onde a unha cresce.
Quando essa barreira está íntegra, bactérias e fungos não têm entrada fácil. Quando você corta ou remove a cutícula, você abre um caminho direto para essa região. Nos pés especificamente, o risco é maior: ficam dentro de sapatos (ambiente quente e úmido), em contato constante com o chão, cobertos de meia. É um ambiente que favorece a proliferação de microrganismos — e sem a barreira da cutícula, qualquer portalzinho é porta aberta.
O corpo responde a essa remoção repetida de um jeito que a maioria das pessoas não percebe: ele produz mais cutícula, mais espessa, como tentativa de repor o que foi retirado. Aí você remove de novo, ela volta mais dura, você remove com mais força. É um ciclo que vai na direção oposta do que você quer.
A surpresa maior para mim foi outra: quando você hidrata a cutícula diariamente, ela amolece, fica fina e praticamente some visualmente. O resultado estético de hidratar bem é semelhante ao de remover — sem os riscos que vêm com a remoção.
O que mudou — e o que a minha mãe vai ter que admitir

Depois daquela visita, fui conversar com minha mãe sobre o que a Tia Lucy tinha dito. Ela ouviu, fez aquela cara de “não sei, parece que sempre foi assim”, e continuou tirando por um tempo.
Algumas semanas depois, ela teve uma infecção leve. Eu também, naquele mesmo período. Nada grave — mas desconfortável, e o suficiente para parar e pensar.
Algumas amigas minhas nunca tinham tirado. Nunca removeram, nunca tiveram infecção. Isso não é prova científica, é claro — mas era um padrão suficientemente reconhecível para fazer sentido junto com o que eu já havia pesquisado.
A minha mãe mudou. Eu mudei. Algumas das minhas amigas que tiravam também mudaram — mais pelo raciocínio do que pela infecção.
Faz uns dois anos que eu não uso alicate em cutícula de pé. E vou ser honesta: o visual dos meus pés não mudou de nenhuma forma que alguém além de mim perceba.
Sobre a obsessão com detalhe que ninguém vê
A Tia Lucy disse uma coisa que ficou junto com a explicação sobre bactéria:
“Amiga, visualmente é impossível alguém chegar e ficar olhando de pertinho seu pé.”
E ela tem razão. Existe um padrão que a gente foi criada para seguir — cutícula tirada, esmaltada, tudo no lugar — que corresponde a um nível de inspeção que ninguém na vida real faz. Ninguém se aproxima dos seus pés com lupa. Ninguém vai notar que a cutícula está 2mm mais visível do que você gostaria.
A gente foi condicionada a acreditar que cuidar dos pés significa remover tudo que aparece, deixar cada detalhe perfeito para um olhar que nunca vai existir. E enquanto tenta isso, pode estar abrindo portas que seria melhor manter fechadas.
Não estou dizendo que pedicure é errada. Estou dizendo que o padrão de “pé bem cuidado = cutícula removida” vale ser questionado.
Como cuidar sem remover — o que realmente funciona

A prática é simples, e isso é uma das coisas que mais me surpreendeu: não precisa de ritual elaborado.
Hidratar diariamente. Um pouco de óleo (jojoba, amêndoas, vitamina E) ou qualquer hidratante mais rico na região da cutícula antes de dormir. Não precisa ser produto específico — o que você já usa nos pés pode ir para a cutícula também. O que muda é a consistência: toda noite, não uma vez por semana.
Não cortar o que está vivo. A pedrinha seca ao redor da cutícula — a que descasca, que fica levantada — pode ser suavemente removida depois de um banho morno, com os pés amolecidos. O que está aderido e vivo, não.
Se quiser empurrar, use madeira. O palito de madeira para cutícula é mais seguro do que o instrumento de metal — menos pressão, menos risco de machucar. E só empurre depois de um escalda-pés ou banho, com a pele já macia. Nunca a seco.
Paciência de semanas. A cutícula hidratada consistentemente começa a apresentar visual diferente em 2 a 4 semanas. Não é transformação imediata — é o resultado de um hábito que a pele responde gradualmente.
Isso conversa com o que já escrevi sobre o ritual japonês para cuidar dos pés — e por que amolecer antes de qualquer coisa muda o resultado. A lógica é a mesma: preparar antes de intervir.
Quando buscar avaliação
Se a cutícula já está com infecção — vermelhidão, inchaço, dor, pus — não é caso de hidratante. É caso de avaliação médica. Antibiótico tópico ou oral pode ser necessário, e tentar resolver com produto de cuidado vai atrasar o tratamento amiga.
E se a sua cutícula está muito espessa, endurecida ou irregulares de uma forma que incomoda significativamente, pode valer a pena ver com um podoscopista antes de tomar qualquer decisão sobre remoção. Às vezes existe um histórico de remoção repetida que criou um estado de pele que precisa de cuidado mais específico antes de mudar a rotina.
Isso se conecta com o que escrevi sobre o óleo de tea tree nos pés — e como a distinção entre higiene preventiva e tratamento de infecção muda completamente a abordagem. O cuidado tem limite, e reconhecer esse limite é parte de cuidar bem.
O que eu diria para mim de dois anos atrás
Que a Tia Lucy estava certa. E que “sempre foi assim” não é razão suficiente para continuar fazendo alguma coisa que talvez não precise ser feita.
Não foi uma descoberta dramática leitora. Foi uma pergunta inocente numa tarde de visita, uma resposta prática de uma mulher que simplesmente tinha parado de se perguntar por que fazia o que todo mundo fazia, e uma consequência leve meses depois que fez tudo se encaixar.
Hoje eu hidrato sim. Minha mãe também. Algumas amigas vieram junto.
Não tiro mais nada do que não precisa ser retirado.
Me conta nos comentários: você ainda remove a cutícula dos pés — ou já mudou essa parte da sua rotina? E se mudou, o que te fez mudar?





