Antes de entender o meu ciclo, minha pele ficava igual um pimentão na semana antes da menstruação.
Não é exagero. Espinhas, vermelhidão, oleosidade que parecia ter vida própria — e eu fazendo o que todo mundo faz nesses casos: tentando resolver com mais produto, mais ácido, mais alguma coisa pra “consertar” o que estava acontecendo. E quanto mais eu tentava combater, mais irritada a pele ficava. E mais irritada eu ficava junto.
Demorei pra entender que o problema não era a minha rotina. Era a expectativa de que a pele deveria funcionar sempre do mesmo jeito, independente de qualquer coisa.
A pele não funciona assim. Especialmente a pele de uma mulher.
Por que a pele muda ao longo do ciclo menstrual

O ciclo menstrual não é só o período de menstruação. É um ciclo inteiro com fases distintas, cada uma com um perfil hormonal diferente — e esses hormônios afetam a pele de formas muito concretas.
De forma simplificada:
Na primeira metade do ciclo (aproximadamente dias 1 a 14, contando do início da menstruação), o estrogênio vai subindo. O estrogênio tem efeito anti-inflamatório, estimula colágeno e mantém a barreira da pele mais equilibrada. Muitas mulheres percebem que a pele fica mais bonita por volta da ovulação — não é coincidência.
Na segunda metade do ciclo (dias 15 a 28, aproximadamente), a progesterona sobe. E aqui começa o problema para quem tem pele com tendência à oleosidade e espinhas.
A progesterona estimula a produção de sebo pelas glândulas sebáceas. Mais sebo significa mais material disponível para obstruir poros, alimentar bactérias e criar o ambiente ideal pra espinha aparecer. Além disso, a progesterona pode fazer a pele reter um pouco mais de água — o que pode dar uma sensação de pele mais “cheia” ou até fazer os poros parecerem mais visíveis.
Quando a menstruação se aproxima, estrogênio e progesterona caem. E aí vem o cortisol — hormônio do estresse — que nessa fase tende a ficar mais elevado. Mais inflamação. Mais reatividade.
O resultado? Aquela espinha que apareceu “do nada”, no queixo ou na mandíbula, num momento em que você achava que estava fazendo tudo certo.
Já escrevi sobre como o ciclo menstrual dita o ritmo da pele — e como usar isso a favor — e o que ficou daquele processo foi exatamente essa percepção: a pele não está piorando. Ela está respondendo ao momento do ciclo.
Por que as espinhas hormonais aparecem no queixo e na mandíbula

Você já reparou que a espinha da TPM quase sempre fica na parte baixa do rosto — queixo, mandíbula, ao redor da boca?
Não é aleatório.
Essas regiões têm maior concentração de receptores androgênicos — receptores que respondem aos hormônios masculinos que todas as mulheres produzem em pequena quantidade. Quando a progesterona sobe e o estrogênio cai, esse balanço hormonal muda e esses receptores ficam mais ativos, estimulando mais produção de sebo exatamente ali.
Isso tem um nome: acne hormonal. E ela tem um padrão.
O que não tem nada a ver com isso:
- Se você limpou o rosto direito
- Se o seu tônico está funcionando
- Se você está exfoliando de menos ou de mais
Tem tudo a ver com isso:
- Onde você está no ciclo
- Como o seu corpo em particular responde a essa fase
Essa distinção mudou como eu me relacionei com a própria pele. Porque ao invés de me perguntar “o que eu errei?”, comecei a me perguntar “onde estou no meu ciclo?”
A virada: quando parei de combater e comecei a adaptar

Por muito tempo, quando as espinhas apareciam, minha reação era aumentar a intensidade da rotina. Mais esfoliante. Mais ácido. Mais tentativa de “atacar” o que estava acontecendo.
O resultado era previsível: pele irritada, mais inflamada, mais vermelha.
A mudança real aconteceu quando entendi que pele inflamada não precisa de mais agressão. Precisa de calma.
Hoje, quando o período se aproxima, eu não abandono a minha rotina — mantenho a estrutura básica. Mas simplifico e suavizo. Troco os ácidos mais intensos por algo mais gentil, e incluo dois produtos específicos: óleo de rosa mosqueta e um creme calmante.
O rosa mosqueta tem propriedades anti-inflamatórias e ajuda a pele a se recuperar mais rápido de inflamações. O creme calmante reduz a reatividade e mantém a barreira sem agredir. Juntos, eles não eliminam as espinhas que já estão em formação — mas evitam que eu piore o que o ciclo já está criando.
O resultado não é pele perfeita durante o período. É pele neutra. Equilibrada. Sem o rosto pimentão que eu tinha antes.
E isso, pra mim, já é muito.
Como ajustar a rotina de skincare durante o ciclo — o que eu faço na prática

Não é sobre criar uma rotina radicalmente diferente. É sobre calibrar o que você já tem.
Na primeira metade do ciclo (folicular e ovulatória):
A pele tende a tolerar mais. É o momento para ativos mais presentes — esfoliação química suave, sérum vitamina C, retinol se você usa. A pele está mais resiliente nessa fase.
Na segunda metade (fase lútea, antes da menstruação):
Aqui eu começo a reduzir a intensidade. Menos ácidos, ou versões mais suaves. Se uso retinol, espaço mais. Priorizo hidratação e ingredientes anti-inflamatórios.
O que incluo:
- Rosa mosqueta — algumas gotas antes do hidratante
- Creme calmante — aquele que vai acalmar, não estimular
- Niacinamida, se sentir tendência à oleosidade — regula sebo sem agredir
Durante a menstruação:
O mínimo que funciona. Limpeza suave, hidratante adequado pra esse momento de pele mais sensível, protetor solar. Deixo a pele em paz.
Já escrevi sobre o que a sua pele está pedindo hoje — e como entender qual textura de produto faz sentido — e esse princípio vale especialmente durante o ciclo: a pele que está inflamada não quer a mesma textura da pele equilibrada.
O que evitar durante o período:
- Esfoliação agressiva ou mecânica — pele irritada com mais agressão = mais irritação
- Ativos muito potentes em concentrações altas — ácidos em alta concentração podem potencializar a inflamação
- Espremer as espinhas — eu sei, é difícil resistir, mas o dano que isso causa demora semanas pra se recuperar
Já escrevi sobre por que acalmar a pele pode ser o primeiro passo antes de qualquer outro cuidado — e esse princípio vale especialmente durante a fase pré-menstrual: não é hora de intensificar, é hora de suavizar.
Como começar a observar o seu ciclo e a sua pele juntos
Esse é o caminho mais útil que posso te dar.
Por um mês, começa a anotar — no celular, num papel, onde der. Não precisa ser elaborado:
- Dia do ciclo (ou fase, se souber identificar)
- O que a pele está fazendo: oleosa, seca, com espinha nova, mais vermelha, calma
- O que você usou na rotina
- Como a pele reagiu
Em dois ou três meses de observação, o padrão aparece. E quando o padrão aparece, você para de ser surpreendida. Começa a se preparar. E para de se culpar.
Isso é o que eu chamo de jogar a favor do ciclo. Não de lutar contra ele.
Já escrevi sobre como parei de tentar apagar cada marca da pele e comecei a cuidar dela — e a mesma mudança de perspectiva se aplica aqui. Pele com espinha durante a menstruação não é pele falhando. É pele respondendo ao que está acontecendo no corpo.
Uma nota importante
Se a acne hormonal é severa, persistente, dolorosa ou está causando sofrimento significativo além do desconforto de sempre — esse é o sinal de que vale consultar um profissional de saúde. A rotina adaptada de skincare pode ajudar a reduzir o impacto visual e a irritação, mas casos de acne hormonal mais intensa têm abordagens específicas que estão além do que qualquer sérum resolve sozinho.
Conhecer o ciclo é ponto de partida. Saber quando buscar mais ajuda também faz parte disso.
Aceitei que minha pele muda durante o ciclo. E quando aceitei, parei de me culpar por algo que o meu corpo estava fazendo naturalmente.
A espinha na TPM não é prova de que você está cuidando mal da pele. É a pele respondendo ao que os hormônios estão fazendo. E quando você entende isso, pode responder com cuidado em vez de combate.
Conhecer o próprio ciclo mudou completamente a minha relação com o próprio rosto.
Me conta nos comentários: você já percebeu esse padrão na sua pele — e o que você faz quando a TPM chega?





