Você já olhou em volta — pro seu círculo de amizades, pros seus contatos, pras pessoas que fazem parte da sua vida — e sentiu uma estranheza específica?
Não solidão exatamente. Mais uma sensação de estar crescendo sozinha.
É diferente de não ter pessoas. É ter pessoas, mas sentir que nenhuma delas está realmente no mesmo caminho que você. Que você está tentando avançar sem ninguém do lado que entenda o que você está tentando construir. Que você precisa se contrair um pouco pra caber nas conversas — porque os seus sonhos, os seus medos, as suas perguntas não encontram eco onde você está.
Vi isso acontecer com muitas mulheres — e comigo também. Mulheres com 20 amizades, onde apenas uma delas estava de verdade presente no dia a dia da luta. Uma só. Pra ir bem, pra passar mal, pra brigar, pra se reconciliar, pra fazer o caminho juntas de verdade.
E tudo bem ter só uma dessas. O problema é quando a gente confunde quantidade de conexões com qualidade de pertencimento — e fica se sentindo sozinha dentro de um círculo cheio.
Por que muitas conexões não significam menos solidão

Existe uma crença que a cultura de networking moderna solidificou que eu Ada nunca aceitei completamente: a de que a sua rede é uma lista de contatos e a meta é expandir.
Número de seguidores. Número de conexões no LinkedIn. Número de pessoas que te conhecem. Como se o sucesso de uma rede fosse medido pela extensão dela.
O que isso ignora é que solidão relacional — aquela sensação de crescer sem companhia — não tem a ver com quantidade. Tem a ver com ressonância. Com sentir que existe alguém que te vê de verdade, que pode desafiar você com segurança, que aparece no momento mais feio — não só quando tudo está bem.
Uma conexão de alma não é necessariamente a pessoa mais bem-sucedida que você conhece. Não é a mais conectada, a mais influente ou a que tem o melhor conselho de carreira. Às vezes é simplesmente aquela que faz você se sentir menos sozinha no caminho — e isso, dependendo do dia, vale mais do que qualquer mentoria.
Já escrevi sobre como encontrar sua tribo e o que isso tem a ver com a sua essência — e o que ficou daquele processo foi isso: pertencer a um lugar não é sobre ser aceita por muitas pessoas. É sobre existir num vínculo onde você não precisa diminuir o que é pra caber.
A Alice, as brigas e o que aprendi sobre amizades que realmente valem

Eu, Ada, acreditava que quanto mais pessoas eu mantivesse na minha vida — conexões ativas, amizades em curso, nenhum vínculo solto —, mais protegida e acompanhada eu estaria. Manter contato com todo mundo parecia ser o jeito certo de não ficar sozinha.
O erro que me custou caro — e que eu não quero que você cometa — foi confundir manutenção de vínculos com qualidade de vínculos. Eu estava presente em muitas relações. Mas poucas delas estavam de fato presentes em mim.
Tinha chegado num ponto em que eu me sentia sozinha mesmo tendo muito contato social. Não faltavam mensagens, não faltavam planos, não faltavam pessoas. Faltava aquela coisa que só algumas relações têm — a sensação de que quando a vida fica feia, tem alguém ali que não vai embora.
A ficha caiu quando eu percebi que estava tratando as minhas conexões como um número a ser mantido — em vez de vínculos a serem cultivados.
O estalo veio de um jeito inesperado — através de uma briga com a Alice.
A Alice é minha melhor amiga. E quem tem uma amiga de verdade sabe que amizade real tem briga. Quando a vida CLT pesa demais, quando os sentimentos estão à flor da pele, quando eu estou de cabeça quente — e aparece alguém na minha frente, às vezes a descarga vai na direção errada. A Alice já levou algumas dessas. (Desculpa, Alice kkkk.)
Mas aqui está o que essas brigas me ensinaram: depois de cada uma, bate aquela coisa que não tem como ignorar. Aquela vontade de voltar, de pedir desculpa, de reconhecer que eu estava errada — e de estar com ela de qualquer jeito, mesmo que tenha sido difícil. E ela faz o mesmo. Olha pra mim, pede desculpas, e me abraça.
E não tem papo, não tem drama, não tem registro das contas. A gente volta. Porque a relação é maior do que o momento ruim.
Decidi dar um passo atrás e simplificar.
Parei de me esforçar igualmente em todas as direções. Comecei a prestar atenção em quais relações me enchiam — e quais me esvaziavam — e a investir diferente em cada uma.
Eu precisei dizer um “não” audacioso à ilusão de que quantidade de conexões equivalia a não estar sozinha — para finalmente dizer “sim” à qualidade das poucas que realmente importam.
Hoje, o meu inegociável é este: cultivo com presença as relações que têm ressonância — onde há troca real, onde posso ser honesta, onde sou vista. E permito que o resto exista na dimensão certa, sem exigir que toda conexão seja profunda.
Na minha rotina de hoje, isso se traduz num círculo menor e muito mais real. Nem sempre grande. Às vezes só a Alice e algumas outras. Mas quando precisei, elas estavam.
Os três tipos de mulher que mudam sua vida — e como reconhecê-las

Antes de entrar no prático, quero apresentar um conceito que pra mim resume o que uma rede feminina pode realmente oferecer — não como estratégia de carreira, mas como prática de crescimento.
Chamo de Networking de Alma. E ele não se pergunta “o que essa pessoa pode fazer pela minha carreira?” Pergunta: “o que essa relação desperta, ensina e constrói em nós?”
Dentro dessa visão, existem três tipos de conexão que, quando aparecem na sua vida, mudam algo — nem sempre de forma óbvia, mas de forma real:
🌱 A mulher que abre caminhos
Ela não necessariamente te abre portas diretas. Mas te mostra possibilidades que você ainda não havia considerado pra você mesma. Você olha pra ela e pensa: “isso existe? eu posso tentar isso também?” Ela expande o que você achava possível — só pela forma como ela existe.
Pode ser alguém que você mal conhece. Pode ser uma mulher que você acompanha de longe e que planta uma semente sem saber que plantou. O efeito é o mesmo: depois dela, você não vê mais o mundo do mesmo jeito.
🔥 A mulher que provoca crescimento
Essa não é a mais confortável. Ela desafia. Às vezes discorda de você. Às vezes pergunta algo que te incomoda porque toca num ponto que você preferia não mexer. Ela não te deixa acomodar.
E o incômodo que ela causa não é crueldade — é cuidado. É o tipo de relação que te move porque não deixa você ficar parada. Você sai de toda conversa com ela precisando pensar em alguma coisa.
Já escrevi sobre a arte de ouvir em silêncio e como a presença conecta pessoas mais do que as palavras — e o que aprendi foi que as conversas que mudam alguma coisa raramente são as mais fáceis. São as que exigem que você fique presente, mesmo quando o que está sendo dito é difícil de ouvir.
🤍 A mulher que oferece pertencimento
Essa é a mais subestimada das três. Ela não necessariamente abre caminhos ou provoca crescimento direto. Ela simplesmente faz você se sentir que não está sozinha.
Pode ser a amiga com quem você não fala toda semana mas que, quando você precisou de verdade, apareceu. Pode ser aquela que não tem conselho sofisticado mas que sabe sentar do lado e ouvir. Pode ser a Alice.
Essa relação tem um efeito que é difícil de medir mas fácil de sentir: com ela, você tem mais coragem pra fazer o que precisa fazer. Não porque ela resolve seus problemas. Porque ela te lembra que você não está enfrentando sozinha.
Como criar conexões reais — sem parecer interesseira e sem esperar que as outras façam o primeiro movimento

Aqui vai o prático. E começa com uma pergunta que inverte a lógica usual do networking:
Antes de pensar no que você pode ganhar numa conexão, pense no que você pode oferecer.
Não de forma calculada. De forma genuína. O que você tem — experiência, atenção, uma pergunta boa, uma perspectiva diferente, simplesmente presença — que poderia enriquecer uma troca com essa mulher que você admira?
Quando você começa por aí, a conexão deixa de ser uma abordagem e vira uma conversa.
1. Preste atenção nas mulheres que cruzam seu caminho — não só nas que você busca intencionalmente. Algumas das conexões mais valiosas da minha vida não foram planejadas. Foram encontros que eu quase deixei passar porque não pareciam “estratégicos.” Uma conversa no corredor. Uma mulher sentada do meu lado num evento. A colega que chegou numa semana qualquer de trabalho.
2. Não espere a versão “pronta” de si mesma pra se aproximar. Existe uma armadilha silenciosa que impede conexões reais: a de achar que você precisa estar numa posição melhor, mais estabelecida, mais segura, antes de se aproximar de mulheres que admira. Você não precisa. Conexões reais acontecem entre versões em construção — não entre versões concluídas.
3. Invista mais fundo em poucos do que superficialmente em muitos. Uma mensagem que diz que você pensou naquela pessoa vale mais do que dez likes por obrigação. Uma conversa real vale mais do que meses de contato vazio.
4. Reconheça — e diga — o que a outra pessoa fez por você. Sabe quando alguém te ensina algo, abre um caminho, ou simplesmente está lá? Diga. A maioria das pessoas não sabe o impacto que tem. Nomear faz parte de cultivar.
5. Não transforme todas as pessoas numa categoria. Nem toda mulher que você admira precisa virar mentora. Nem toda mentora precisa virar amiga próxima. Nem toda amiga próxima precisa funcionar como suporte profissional. Conexões diferentes têm profundidades diferentes — e está tudo bem.
6. Quando as coisas ficam difíceis na relação — e vão ficar —, observe quem fica. Isso conecta diretamente com o que já abordei sobre a cura do padrão repetitivo e como parei de escolher amizades que me feriam — porque as relações de alma não somem nos momentos difíceis. Elas ficam. Mesmo que seja só pra sentar do lado em silêncio.
Networking de alma vs. networking de currículo

| O que observar | Networking tradicional | Networking de alma |
|---|---|---|
| A pergunta central | “O que essa pessoa pode fazer por mim?” | “O que essa relação desperta em mim?” |
| O critério de valor | Posição, influência, utilidade | Ressonância, troca, presença |
| Como se sente depois | Neutro ou calculado | Algo se moveu — em você ou nela |
| O que mantém o vínculo | Interesse mútuo de curto prazo | Cuidado genuíno que resiste ao tempo |
| O que você oferece | Potencial de retorno | Atenção real, perspectiva, presença |
| Onde acontece | Estrategicamente, em eventos ou plataformas | Onde a vida já é |
Checklist: as mulheres ao seu redor estão te fazendo crescer?
Responde com honestidade — não com a lista que você gostaria de ter:
☐ Existe pelo menos uma mulher na sua vida com quem você pode ser completamente honesta — sobre os medos, os erros, os sonhos que ainda não contou pra ninguém?
☐ Tem alguém que abre possibilidades na sua imaginação — cujo exemplo te lembra que o que você quer é possível?
☐ Tem alguém que te desafia de um jeito que te faz crescer — não que te faz sentir menor, mas que te move?
☐ Quando as coisas ficaram difíceis recentemente, você sabia com quem contar — e essa pessoa apareceu?
☐ Você tem pelo menos uma relação onde a troca é real nos dois sentidos — onde você também oferece algo que tem valor pra ela?
☐ Tem alguma mulher que você admira e com quem ainda não se aproximou porque não sabe o que falar — ou porque tem medo de parecer interesseira?
Quando amadurecemos, começamos a ver quem é quem. Não com cinismo — com clareza. E essa clareza não faz você desconfiar de todo mundo. Faz você perceber onde investir o que é precioso: a sua presença, a sua atenção, a sua lealdade.
Não deixe que certas pessoas que passam pela sua vida façam você fechar o coração pra todas as outras. Existem pessoas ruins e boas. E existem mulheres — como a Alice, como algumas que você vai encontrar ainda — que ficam quando a vida fica feia. Que brigam com você e voltam. Que não te bajulam, mas te dizem a verdade. Que não te deixam crescer sozinha. Já escrevi sobre aprender a dizer adeus e o desapego das pessoas que não cabem mais em você — e o que fica depois desse processo é espaço. Espaço pra quem de verdade pertence.
Me conta nos comentários: quem é a Alice da sua vida — a pessoa que briga com você, volta, e fica de qualquer jeito?





