O Que a Água Me Ensinaria Sobre a Vida Se Eu Parasse Para Observá-la

Eu estava sentada com os olhos fechados, comendo chocolate, perto de uma correnteza forte de rio, e tomei o maior susto da minha vida.

Calma, já explico.

A Alice, minha melhor amiga, apareceu do nada atrás de mim. Do nada mesmo. Quase morri. A desgraçada ainda riu. Mas eu preciso voltar um pouquinho, porque o susto só foi tão grande por um motivo: eu estava longe. Não longe de lugar. Longe de mim mesma, de um jeito bom, que eu não sentia fazia tempo.

Eu gosto de fazer trilha quando posso. Naquele dia, a trilha me levou até um rio perto da floresta, daqueles que você ouve antes de ver. Sentei, tirei o chocolate da bolsa, fechei os olhos e fiquei.

E foi ali que eu descobri uma coisa que parece óbvia, mas que eu nunca tinha parado para perceber.


A água não faz um som. Ela faz vários

Amiga, os sons. A água não faz “um barulho de água”. Ela faz um monte de barulhos ao mesmo tempo, e eles mudam o tempo todo.

Tinha o som grave, de fundo, da parte mais forte da correnteza. Tinha uns estalinhos, de onde a água batia nas pedras. Tinha um som mais agudo, quase de conversa, onde ela passava mais rasa. E tudo isso junto formava uma coisa que parecia contínua, mas que nunca se repetia.

Eu fiquei lá, de olhos fechados, separando os sons como quem tenta separar os ingredientes de uma receita. Quando abri os olhos, a água continuava passando. Passando, passando, sem parar, sem pressa, sem cansar de passar.

É esquisito falar isso, mas foi a primeira vez em muito tempo que eu fiquei olhando para uma coisa em movimento sem sentir que eu também precisava me mover.

Eu já escrevi sobre o que o silêncio da natureza provoca na gente, na minha experiência em um retiro de um dia sem tecnologia. Só que aqui era o contrário: não era silêncio. Era barulho. E mesmo assim acalmava. Isso me intrigou.


O peixe que nadava contra a correnteza

Foi aí que apareceram os peixes.

Eram pequenos, bem pequenos, e passavam rápido, levados pela água, tudo normal. Até que um deles fez uma coisa diferente: ele estava nadando contra a correnteza.

Eu falei, em voz alta, sozinha: “Oxi, um peixe tentando voltar.”

Chamei a Alice. “Alice, olha isso!” Só que a Alice já estava longe, falando ao telefone com a mãe dela, combinando de encontrar a gente no fim do parque para seguirmos juntas. Então ela não viu. Ficou só eu e o peixe.

Eu fiquei observando. O peixe se esforçava, se esforçava, ganhava um pouquinho de terreno, a água devolvia. Ele tentava de novo.

E aí, de repente, o raciocínio veio inteiro na minha cabeça. Não foi uma ideia que eu fui construindo. Foi como se alguém tivesse acendido a luz:

A vida é igual àquela água amiga.

Ela só vai para a frente. Ela contorna pelos lados, passa reto, faz curva, mas nunca volta. E o que a gente faz, quando tem medo do que vem pela frente? A gente fica parada. Ou tenta voltar, nadando contra a correnteza, porque o medo do desconhecido, muitas vezes, parece maior do que o medo do que a gente já conhece.

Só que voltar para o passado é como nadar contra a correnteza: você faz um esforço enorme e não encontra nada lá. Porque a vida já levou tudo de lá. As pessoas, as memórias, as fases. Tudo ficou na água que já passou.

E então o peixe cansou. E a água o levou.

Foi essa a parte que mais ficou comigo: a vida nos leva para a frente porque a gente cansa.


Eu não sei por que o peixe fazia aquilo (e acho que isso importa)

Preciso ser honesta aqui, porque tem uma coisa que me incomoda um pouco na minha própria história.

Eu não sei por que aquele peixe estava nadando contra a correnteza, serio mesmo, bugou a minha mente leitora.

Pelo que se sabe, é comum peixes de rio ficarem de frente para a água que vem, justamente para se manterem no lugar e verem o que a correnteza traz. Ou seja, talvez ele nem estivesse “tentando voltar”. Talvez estivesse só tentando ficar. Ou comer. Ou fazer qualquer outra coisa de peixe que eu não faço ideia.

Isso desmonta a metáfora? Acho que não kkk. Mas deixa ela mais interessante, porque eu percebi que o que eu vi foi a minha leitura da cena, não necessariamente a verdade do peixe. E quando a gente se emociona com uma imagem dessas, é mais ou menos isso que acontece: a gente enxerga na água aquilo que já estava mexendo dentro da gente.

Eu acho bonito. E acho justo avisar você, para você também não sair por aí acreditando que a água ensina lições fixas. Ela não ensina. Ela mostra. A lição, quem escolhe é quem olha.


Por que olhar para a água faz a gente pensar diferente?

Aqui eu quero ter cuidado leitora, porque o assunto é cheio de promessa exagerada.

Existem pesquisas que investigam a relação entre ambientes naturais e bem-estar, inclusive os que têm água, que alguns pesquisadores chamam de “espaços azuis”. Em geral, elas apontam para uma associação entre passar tempo nesses lugares e sentir menos estresse ou mais disposição. Associação, veja bem. Não é garantia leitora, não é tratamento, não funciona do mesmo jeito para todo mundo, e muita coisa ainda está sendo estudada.

Uma ideia que ajuda a entender o que talvez aconteça é a de fascinação suave. Pense em coisas que prendem a atenção sem exigir esforço: o movimento de folhas, nuvens passando, a água correndo. Diferente de uma tela cheia de notificações, que puxa a atenção à força, a água deixa a atenção “descansar enquanto trabalha”. Em teoria, isso dá espaço para a mente respirar e, de quebra, pensar em outras coisas, até em coisas que a gente vinha empurrando para depois.

Foi mais ou menos o que eu senti. Não foi paz instantânea. Foi espaço. Espaço para um pensamento aparecer sem eu ir buscá-lo.

E um recado importante: isso não acontece do mesmo jeito olhando vídeo de rio no celular. Eu falei disso em por que ver vídeos de natureza não te descansa. O som, o cheiro, o vento, o fato de você estar lá, tudo isso faz parte.


O medo de parar, o medo de mudar, o medo de não controlar

Vamos falar do que está por trás de tudo isso, porque eu acho que é o coração do assunto.

Muita gente carrega uma conta silenciosa na cabeça:

  • parar é perder tempo;
  • mudar de direção é fracassar;
  • não controlar é correr risco.

Eu mesma já fiz essa conta. E o que a água me mostrou, sem falar nada, é que movimento não é sinônimo de pressa. O rio nunca para, mas também não corre desesperado. Ele contorna a pedra sem brigar com ela. Não precisa saber exatamente onde vai terminar para continuar passando.

Talvez a água não esteja só nos ensinando a desacelerar. Talvez esteja nos ensinando que continuar em movimento também pode ser uma forma de paz.

E aquele peixe cansando e sendo levado? Eu não quero que isso soe como derrota. Cansar não é fracassar. Às vezes é só o corpo, ou a vida, avisando que a gente já tentou voltar o suficiente. Que dá para soltar e deixar a água fazer a parte dela.

(Isso, claro, vale para o passado que a gente insiste em consertar. Não vale para tudo. Quando o peixe sabe o que quer, ele nada. Aprender a diferenciar as duas situações já é meio caminho andado.)


Como levar um pouco dessa água para a sua rotina

Você não precisa de uma trilha, nem de um rio. Mas, se tiver acesso a um, vale tentar. Veja uma forma simples de fazer:

  1. Escolha uma água que se mova. Rio, mar, cachoeira, uma fonte na praça. Até a chuva escorrendo na janela serve de começo. Se for um rio forte ou o mar, observe de um lugar seguro, longe da margem instável. Contemplar não pode virar risco.
  2. Deixe o celular no bolso. Sem foto, sem vídeo. Pelo menos nos primeiros minutos.
  3. Feche os olhos por um instante e separe os sons. Como eu fiz. Quantos barulhos existem ali?
  4. Abra os olhos e escolha uma coisa só para seguir: uma folha, uma bolha, um pedaço de espuma. Veja para onde ela vai.
  5. Faça uma única pergunta, sem tentar responder logo: o que eu estou tentando fazer voltar?

Se você mora em uma cidade grande e a água mais próxima é a da pia, não desanime. Eu já contei como encontro natureza no meio do caos em banho de floresta urbano, e, se você quiser começar bem devagar, este outro texto sobre conectar com a natureza para aliviar o estresse pode ajudar a dar o primeiro passo.

E uma observação honesta: se o que você sente é ansiedade ou cansaço que não passa, a água não substitui acompanhamento profissional. Ela pode ser um companheiro bom no caminho, não o caminho inteiro.


O que eu levei daquele dia

Eu não saí do rio com a vida resolvida. Saí com uma pergunta mais leve.

Antes, eu pensava em “para onde eu vou?”. Depois, passei a pensar em “o que eu ainda estou tentando segurar que a água já levou?”. São perguntas muito diferentes. A primeira cobra um destino. A segunda só pede que eu olhe.

Não sei se o peixe sabia para onde a água ia. Mas ele foi.

E a Alice, aliás, perdeu o peixe inteiro. Eu não.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *