Novembro de 2023 foi o mês que mais me testou no trabalho.
Eu estava em regime CLT, das 8h às 16h, em RH, numa função de liderança que parecia crescer todo dia sem avisar. Tinha sob minha responsabilidade um grupo de jovens aprendizes — oito pessoas — enquanto ainda precisava dar conta das minhas próprias demandas. E pra ser completamente honesta: parte desse grupo não facilitava em nada. Quatro delas especificamente. O tipo de situação em que você tenta, tenta, e fica no limite de não saber se o problema é você ou é a situação.
Era quarta-feira. Eu saí do trabalho às 16h destruída de um jeito que não era só físico.
Lembrava que havia um parque perto de casa. Arborizado, com espaço aberto. Eu não tinha planejado nada — fui porque precisava de ar, de vento, de não estar dentro de quatro paredes. Sentei num banco e olhei pra frente.
O céu naquele momento era azul com laranja forte — aqueles contrastes que parecem pintados demais pra serem reais. E lá no fundo, chegando devagar, uma nuvem escura carregada de chuva. Vento batendo com força.
Eu chorei.
Tava de TPM também kkk, então peguei um chocolate da bolsa e comi chorando, olhando pra aquilo tudo. Se você tá lendo isso pensando “Ada é exagerada” — provavelmente sim. Mas naquele momento eu precisava de exatamente aquilo: chorar, comer chocolate e olhar pra um céu enorme que não me pedia nada.
E foi aí, sem que eu tivesse planejado, que eu percebi algo que continua verdadeiro pra mim hoje: quando eu olho pra cima de verdade — não de passagem, de verdade — minha cabeça fica mais quieta.
O que a mente faz quando você olha para longe

Existe uma razão fisiológica pra isso, e ela é mais simples do que parece.
A maior parte do dia, nossos olhos estão focados em objetos próximos — telas, papéis, o rosto de alguém numa reunião, o celular. Esse esforço de foco próximo e contínuo ativa o sistema nervoso de um jeito que mantém o estado de alerta. É como se o cérebro entendesse: “tem coisa pra processar aqui, não pode relaxar.”
Quando você olha para o céu — uma superfície que não tem borda definida, sem detalhes pra processar, sem nada que exija ação — os olhos relaxam a musculatura que mantém o foco. E isso tem efeito no sistema nervoso como um todo.
Não é misticismo. É simplesmente o oposto do que você passa o dia inteiro fazendo.
Pesquisas em atenção restaurativa sugerem que ambientes com estímulos difusos — natureza aberta, céu, paisagens sem foco específico — ajudam a recuperar a capacidade de atenção que fica esgotada com o esforço cognitivo contínuo. A mente não precisa selecionar, filtrar ou responder. Pode simplesmente existir no espaço por alguns minutos.
É uma pausa real. Diferente de olhar o celular esperando carregar, de checar o feed por “descanso”, de assistir algo enquanto você ainda está pensando em outra coisa. Já escrevi sobre por que vídeos de natureza no celular não entregam o mesmo descanso que a natureza real — e a diferença é exatamente essa: o olho precisa se render a algo que está de verdade lá fora.
Naquele parque, o que estava acontecendo comigo

Eu não sabia disso tudo naquela quarta-feira de novembro.
Só sabia que sair de um ambiente fechado e sentar num parque estava me fazendo bem de um jeito que nenhuma respiração profunda dentro do banheiro do trabalho tinha conseguido fazer.
Acho que parte do que acontece é isso: dentro de um ambiente de trabalho, a mente continua conectada às demandas mesmo quando você não está resolvendo nada. O contexto já basta pra manter o alerta ligado. Você vai ao banheiro mas o problema continua esperando do lado de fora. Você pausa por dois minutos mas o ruído mental não pausa junto.
A mudança de ambiente é real. O parque me tirou do contexto. O céu enorme me deu um objeto de atenção que não tinha nada a ver com planilha, com jovem aprendiz, com meta, com nada.
E o chocolate ajudou também — não vou fingir que não kkk.
Por que olhar para o céu funciona de maneiras que outras pausas não funcionam

Existe uma diferença que vale nomear.
Pausa com tela: o olho continua ativo, o cérebro continua processando conteúdo, o sistema de recompensa fica em loop.
Pausa com o céu: o olho relaxa o foco, o campo visual se amplia, não há conteúdo pra processar, não há decisão a tomar.
A segunda pausa ativa o que os pesquisadores chamam de atenção involuntária — aquela que não exige esforço, que acontece espontaneamente quando você está num ambiente que chama a atenção de forma suave, sem urgência. É o tipo de atenção que descansa, em vez de consumir.
Esse princípio é o mesmo que explica por que olhar pela janela não substitui sair de verdade — o vidro cria uma barreira que reduz parte do efeito. O ambiente externo, com vento, luz e espaço real, é qualitativamente diferente.
Não precisa de uma hora. Não precisa de um parque elaborado. Não precisa de condição perfeita.
Precisa de alguns minutos olhando de verdade — não de passagem — pra um céu que não está pedindo nada da sua cabeça.
O que a luz natural faz além do visual
Existe outra camada que vale mencionar amiga, porque acho que pouca gente sabe.
A luz natural — especialmente a da tarde — tem composição diferente da luz artificial. Ela regula o ritmo circadiano, o relógio interno que organiza sono, humor e disposição ao longo do dia. Ficar o dia inteiro sob luz artificial, sem nenhuma exposição à luz natural, dessincroniza gradualmente esse ritmo — e isso se manifesta como cansaço que não passa, dificuldade de dormir e uma sensação vaga de que o dia não “fechou” direito.
Aquela tarde de quarta-feira em novembro, com o sol se pondo e o céu laranjo, era luz natural intensa num momento do dia que faz diferença pro ritmo circadiano. Sem que eu soubesse, estava fazendo algo que o meu corpo precisava biologicamente.
Não vou transformar isso em uma prescrição — “saia todo dia às X horas ver o pôr do sol”. Mas vale saber que o corpo reconhece e responde à luz natural de um jeito que a luz do computador nunca vai entregar.
Já falei sobre como o por do sol pode ser uma forma de terapia — e essa conversa continua aqui: não é sobre espiritualidade, é sobre o que o sistema nervoso e o ritmo biológico reconhecem como necessidade.
A parte que ninguém fala sobre mente feminina

Quero falar uma coisa com você porque acho que é importante.
A nossa mente, como mulher, carrega muito. Não é fraqueza leitora — é a soma de expectativa sobre o que a gente deve dar conta, de emoções que vivem mais perto da superfície do que em muitos outros contextos, de papéis que não terminam quando o expediente acaba.
Eu estava em TPM naquela quarta-feira — e isso é real, tem efeito hormonal concreto no processamento emocional. Mas mesmo sem TPM, aquele acúmulo de semanas liderando uma equipe difícil, fazendo o próprio trabalho e o alheio, estaria me destruindo da mesma forma.
A gente não colapsa de uma hora pra outra. Colapsa depois de ignorar sinais por semanas até que um dia de quarta-feira qualquer basta pra desabar.
O parque não resolveu meu problema com aquelas quatro meninas. Elas continuaram lá na quinta-feira. Mas naquela tarde eu voltei um pouco a mim mesma — e isso mudou como eu entrei na quinta com o que era possível enfrentar.
Conectar com a natureza como forma de aliviar o estresse não é solução pra tudo. É uma das formas de não se perder completamente quando as semanas estão difíceis demais.
Como incorporar isso sem transformar em mais uma tarefa
Esse é o ponto onde eu poderia escrever uma lista de passos. Não vou fazer isso.
Porque o espírito do que eu descobri naquele parque é o oposto de uma lista de passos: é a ausência de tarefa. A coisa mais simples que eu podia fazer — sentar, olhar pra cima, não resolver nada por alguns minutos.
O que funciona pra mim:
Quando percebo que minha cabeça não para, que estou respondendo mensagem enquanto penso em outra coisa, que já faz horas sem olhar pra algo mais longe do que a tela — saio. Não com planejamento. Cinco minutos do lado de fora, olhando pro céu.
Não precisa ser pôr do sol dramático com nuvem escura chegando. Qualquer céu serve — o azul comum de uma manhã, o cinza encoberto de um dia nublado, o alaranjado suave de uma tarde qualquer.
O que precisa acontecer é parar de verdade. Não olhar o céu enquanto resolve mentalmente a próxima tarefa. Só olhar.
É ridiculamente simples pra uma prática que entrega tanto.
Eu voltei pra casa naquela quarta-feira com a cara inchada de tanto chorar e com gosto de chocolate na boca.
Não resolvi nada. A situação no trabalho continuou igual por mais um tempo — até que eu mesma decidi que aquele caminho não era mais pra mim. Mas aquela tarde no parque ficou como uma referência: esse é o jeito que a minha mente tem de me dizer que precisa de espaço.
E o céu — enorme, sem borda, sem nada pedindo nada de mim — é o lugar mais fácil que encontrei pra dar esse espaço.
Da próxima vez que a sua cabeça estiver cheia demais, não precisa de uma técnica. Não precisa de um app, de um vídeo, de um ritual elaborado.
Tente apenas olhar pra cima por alguns minutos.
Não pra resolver nada. Só pra lembrar que existe algo lá fora que é muito maior do que qualquer problema que está te ocupando agora.





