Domingo passado eu estava numa aula de yoga ao ar livre aqui perto de onde moro. Tem sempre mulheres de todas as idades — a Vik, de 23 anos, a Dona Sandra, de 78, e um monte de mulheres no meio. E no final da aula, como sempre, tem um momento de fala — um conselho, um desabafo, o que vier.
Naquele domingo, veio um choro.
Uma das mulheres começou a falar sobre insatisfação com o próprio corpo. E aí outra concordou. E outra. E de repente aquele círculo de mulheres de idades completamente diferentes estava unido pelo mesmo peso — esse sentimento de que o próprio corpo é um problema que precisa ser resolvido.
Fiquei em silêncio. Porque aquilo me incomodou de um jeito que não conseguia nomear na hora.
Depois, fui pesquisar, e encontrei um dado que me deixou parada: 92% das mulheres sofrem algum tipo de insatisfação com o próprio corpo. Nove em cada dez brasileiras já sentiram vergonha do próprio corpo por pressão estética.
Eu estou incluída nesse número. E pode ser que você também.
O banheiro do shopping — a cena que eu não consigo esquecer

Uns dois meses atrás leitora, fui ao shopping. Parei no banheiro, fiz meu caminho, lavei as mãos. E enquanto me olhava no espelho, notei uma garota — uns 21, 22 anos — tirando fotos e editando pra postar no Instagram. Sem julgamento nenhum: eu também tiro foto, também edito, também me preocupo com o que posto.
Saí. Fui andar pelo shopping, ver as coisas, clarear a cabeça. Parei numa padaria, comi um pão de queijo com suco de maracujá porque o cheiro era irresistível.
Horas depois, voltei pra aquele mesmo banheiro.
Ela estava lá.
A mesma garota. Ainda editando. Agora estressada, frustrada, com um olhar que eu não consigo descrever direito — vazio é a palavra mais próxima. Fui lavar as mãos e ela me olhou e perguntou: “Moça, essa foto está boa?”
Olhei pra foto.
Não era ela. Ou era ela tão alterada que eu não saberia reconhecer aquele rosto numa rua. O nariz diferente, a pele sem nenhuma textura, o contorno do rosto modificado. Ela tinha passado horas editando a própria imagem até o ponto em que não conseguia mais perceber o que estava criando.
Isso tem nome. Dismorfia da Selfie — uma manifestação do Transtorno Dismórfico Corporal que vem crescendo desde que filtros de edição se tornaram ferramentas de uso cotidiano. Quem desenvolve não consegue mais olhar pra própria imagem sem ver defeito. O que começa como edição vai se tornando uma incapacidade de se aceitar como existe.
Eu não sou médica e não estou diagnosticando. Só sei o que vi nos olhos daquela menina.
Abracei ela sem pensar. Ela chorou no meu ombro. A gente ficou junta o resto da tarde no shopping inteiro, conversando, andando, só existindo num lugar que não era uma câmera.
Sabrina — um beijo pra você. Eu sei que você está lendo isso.
Essa cena foi o que me trouxe aqui hoje.
A pergunta que o artigo realmente precisa responder
Você veio até aqui perguntando se tratar estrias significa não aceitar o próprio corpo.
Mas antes de responder isso, quero te perguntar outra coisa: quando você pensa em “tratar” uma estria, o que exatamente você está tentando mudar?
É a textura? A cor? O contraste com a pele ao redor? O repuxamento quando você passa a mão?
Ou é a sensação de que essa marca não corresponde ao que você foi ensinada que “deveria” ser?
Essas são respostas completamente diferentes. E a confusão entre elas é o que faz o tema de estrias — e de marcas do corpo em geral — tão carregado emocionalmente.
Porque tratar uma textura que incomoda ao toque é diferente de tentar apagar uma marca porque você aprendeu que corpo marcado é corpo feio. A primeira nasce de uma escolha. A segunda nasce de uma crença que alguém implantou em você.
E o problema que eu vejo — o que me perturbou na aula de yoga e o que eu vi nos olhos da Sabrina — é que a maioria das mulheres não consegue mais distinguir essas duas coisas. Acham que qualquer insatisfação com o próprio corpo é fraqueza. Ou, ao contrário, acham que qualquer cuidado com a aparência é rejeição disfarçada.
Nenhuma das duas é verdade.
Cuidar é diferente de declarar guerra — e esse é o ponto

Eu quis perder um pouco de peso há um tempo. Estava me sentindo mais pesada do que queria, menos energética.
O que eu fiz? Comi melhor. Dormi melhor. Comecei a treinar de manhã, trinta minutinhos, mesmo que seja pouco. Importante é fazer.
Isso é cuidado. Eu decidi fazer algo pelo meu corpo porque queria me sentir melhor dentro dele.
Declarar guerra seria diferente: acordar todo dia me xingando no espelho. Mandar a cabeça pesada de culpa antes do café da manhã. Fazer dieta punitiva. Comparar meu corpo com algo que está numa tela editada. Nunca estar satisfeita mesmo quando chego onde quis chegar.
A diferença não está no ato. Está na relação.
Você pode querer melhorar a aparência de uma estria sem precisar acreditar que a mulher que tem essa estria precisa mudar.
Releia isso amiga.
Você pode querer mudar uma coisa no seu corpo sem transformar seu corpo em inimigo.
Quando eu escrevi sobre o que aprendi parando de tentar apagar cada marca da minha pele e começando a cuidar dela, a mudança não foi “passar a amar tudo”. Foi separar duas coisas que estavam coladas: insatisfação com uma marca específica e rejeição de mim mesma.
A primeira pode existir. A segunda não precisa.
De onde veio essa confusão — e por que a mídia tem muito a ver com isso

O problema é que a mídia não sabe fazer essa distinção. E as redes também não.
Do lado do mercado de beleza, qualquer tratamento é vendido como a chance de “finalmente” ter a pele que você “merece” — como se a pele que você tem fosse um problema que precisa de solução. Do outro lado, o movimento de aceitação às vezes cai no extremo oposto: qualquer desejo de mudar alguma coisa é sinal de que você está “comprando” os padrões impostos.
E a mulher real fica no meio. Com uma estria que ela olha e não sabe mais o que sente: se quer cuidar porque quer, ou se quer cuidar porque foi ensinada que precisava.
Já escrevi sobre por que cada vez mais mulheres estão abandonando os filtros de beleza nas redes — e o que ficou daquele processo foi que o filtro não é o problema em si. O problema é o que acontece quando a versão editada se torna mais familiar do que a versão real. Quando você olha pra própria foto sem edição e sente estranheza. Quando você não se reconhece mais.
A Sabrina no banheiro do shopping era o exemplo mais extremo disso. Mas existe uma versão mais suave dessa dismorfia em praticamente todas as mulheres que passam tempo demais em feeds de imagens editadas — inclusive eu.
Já escrevi sobre o que as redes sociais fizeram com a forma como olhamos para o nosso rosto — e o que ficou dali foi uma pergunta que ainda ressoa: quando foi que o padrão virou o normal, e nós viramos o desvio?
Como distinguir cuidado de cobrança — perguntas que valem fazer
Não vou te dar uma lista de passos. Mas existem perguntas que ajudam a entender a relação que você tem com o próprio corpo.
Quando você pensa em tratar a estria — quem você está tentando satisfazer?
Se a resposta é “eu mesma, porque quando passo a mão incomoda” ou “porque me sinto melhor quando a área está hidratada” — isso é cuidado que nasce de você.
Se a resposta é “porque não consigo usar biquíni sem pensar que todo mundo vai olhar” ou “porque parece que eu precisaria esconder” — aí estamos falando de uma cobrança que veio de fora e foi internalizada.
A estria está te impedindo de viver alguma coisa?
Evitar praia, piscina, roupas, intimidade, espelhos — quando a marca passou a restringir sua vida, ela deixou de ser uma preferência estética e se tornou algo que merece mais atenção do que um produto tópico pode oferecer.
O cuidado que você faz alivia ou aumenta a ansiedade?
Hidratar, cuidar, usar um produto que gosta — deveria trazer sensação de cuidado. Se a rotina de cuidado virou uma forma de “compensar” uma culpa, ou se você nunca está satisfeita com o resultado independente do que faz, esse pode ser um sinal de que a questão é mais profunda do que a pele.
Sobre a diferença entre o que a hidratação pode mudar e o que fica além dela, já escrevi em detalhes em estrias brancas — textura, cor e o que a hidratação realmente pode mudar. Porque entender o que um produto pode fazer também é parte de ter uma relação mais saudável com o cuidado.
Sabrina — esse artigo é também pra você.
A cena do banheiro do shopping ficou na minha cabeça porque aquele não era um problema de foto. Era uma mulher que havia perdido a capacidade de se ver. E isso me assusta muito mais do que qualquer estria, qualquer marca, qualquer imperfeição que o mercado de beleza está tentando vender como problema.
Nós, mulheres, estamos adoecendo com isso. Noventa e dois por cento não é estatística abstrata. É a sua melhor amiga. É a dona Sandra de setenta e oito anos numa aula de yoga. É você. Sou eu Ada.
Tratar uma estria não significa não aceitar o corpo que a tem. Mas é importante saber por que você quer tratar — e de onde esse desejo vem.
Cuidar é diferente de não aceitar. Querer mudar algo é diferente de declarar guerra. E você não precisa amar cada centímetro do próprio corpo pra se tratar com respeito.
Me conta nos comentários: você consegue perceber quando o cuidado com a pele vira cobrança — ou ainda mistura as duas coisas?





