Eu não gostava de abacate.
Parece mentira agora, mas era verdade. Ficava olhando pra aquela coisa verde com uma desconfiança genuína. Não entendia o hype, não entendia o sabor, não entendia por que todo mundo insistia que eu deveria comer.
Em 2023, quando comecei a treinar de verdade na academia, algo mudou. Não foi uma virada dramática — foi mais uma abertura gradual pra entender o que eu colocava pra dentro. E nesse processo, fui parando de ver comida como “o que eu como” e comecei a pensar “o que isso está fazendo por mim.”
O abacate entrou nessa leva. E junto com ele, veio uma percepção que mudou um pouco a forma como eu penso em beleza.
A pele não começa no creme.
Não que o creme não importe — importe muito, e já falei sobre isso aqui várias vezes. Mas existe uma camada que antecede tudo que colocamos por fora, e que a maioria de nós passa anos ignorando enquanto monta rotina de skincare.
O que a comida faz pela pele — traduzido sem prometer milagre

A pele é um órgão. Um órgão que tem células, que se renova, que produz proteínas, que precisa de suporte para funcionar bem. E como qualquer órgão, ela depende do que o corpo recebe como matéria-prima.
Quando falamos de colágeno — essa proteína que aparece em todo produto de firmeza e elasticidade — estamos falando de uma proteína que o próprio corpo produz, não que a gente coloca nele. E a produção de colágeno depende de nutrientes, entre eles a vitamina C. O que você come participa desse processo.
Vitaminas E e C, carotenoides, compostos vegetais — esses componentes têm ação antioxidante. Combate a radicais livres que chegam pela poluição, pelo sol, pelo estresse. A pele está constantemente sendo bombardeada por esses fatores, e o corpo usa o que tem disponível pra defender os tecidos.
Ácidos graxos essenciais — os omegas 3 e 6 — participam da integridade das membranas celulares e têm relação com processos inflamatórios. Pele com processo inflamatório crônico tende a reagir mais, a cicatrizar mais devagar, a envelhecer de forma diferente.
Dito isso — e quero ser clara nessa parte — a ciência sobre nutrição e pele está avançada o suficiente pra dizer que a relação existe, mas ainda em desenvolvimento suficiente pra que eu não chegue aqui dizendo “coma isso e sua pele vai ser assim.” Individual variation é enorme. O que entra pela boca é um fator entre muitos. Já escrevi sobre como o açúcar se relaciona com o processo de glicação e o que isso significa pra pele — e o que ficou dali é que alimentação influencia, mas a história nunca é só ela.
O que estou dizendo é diferente de prometer resultado: estou dizendo que faz sentido prestar atenção nisso como parte de uma visão mais completa de cuidado.
O abacate, o limão e a cenoura: os alimentos que entraram na minha rotina

Quando comecei a entender mais sobre nutrição pela academia, fui pesquisando o que cada coisa que eu comia fazia. E fui encontrando alimentos que eu já tinha na vida — ou que eu precisava adicionar — com propriedades que dialogam com o que eu já sabia sobre a pele.
Abacate — o meu vilão favorito de antes. Rico em ácidos graxos essenciais (ômega-3 e ômega-6), vitaminas E, C e A. As gorduras monoinsaturadas dele participam da hidratação celular, as vitaminas têm ação antioxidante. Hoje como regularmente e não consigo imaginar como resistia.
Frutas cítricas — laranja, limão, mexerica. A vitamina C delas é um dos nutrientes mais estudados em relação à produção de colágeno. Não é que ela “faça colágeno” — ela participa do processo que a célula usa para fabricar. E é facilmente encontrada, barata, acessível. Já faço uso no dia a dia, o limão especialmente que eu uso bastante na comida mesmo.
Cenoura e batata-doce — ricas em betacaroteno, que o corpo converte em vitamina A. Vitamina A influencia renovação celular e tem relação com o aspecto iluminado da pele. Aquele “glow” que todo mundo quer tem nutrição por trás. Já escrevi sobre os alimentos que iluminam a pele mais do que qualquer cosmético — e essa categoria entra diretamente nessa conversa.
Tomate — licopeno em alta concentração. Antioxidante que tem estudos sugerindo alguma propriedade fotoprotetora interna — não substitui o protetor solar, mas pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de proteção.
Frutas vermelhas — morango, mirtilo, framboesa. Antocianinas e resveratrol, compostos com ação antioxidante forte. Combatem radicais livres que contribuem para o envelhecimento celular.
Não é bicho de 7 cabeças. São alimentos acessíveis, fáceis de encontrar, que a maioria das pessoas já tem acesso. Eu não precisei de suplemento exótico nem de rotina elaborada — só de prestar mais atenção no que já estava disponível.
Nós, mulheres, e os ciclos que afetam a nossa pele

Tem uma parte dessa conversa que quase nunca aparece nos artigos de skincare: as mudanças hormonais que passamos ao longo do mês afetam a pele de forma real.
Na fase pré-menstrual, por exemplo, é comum a pele ficar mais oleosa, mais inflamada, mais reativa. Isso não é fraqueza de rotina de skincare — é biologia hormonal. E o que você come pode ajudar a moderar parte dessa resposta inflamatória.
Alimentos com ação anti-inflamatória, como os ácidos graxos presentes no abacate e nos peixes, ou os antioxidantes das frutas e vegetais coloridos, fazem parte de um contexto que pode ajudar o corpo a navegar esses ciclos com menos pico de inflamação.
Isso não é promessa de ciclo perfeito nem de pele imune às mudanças hormonais. Mas é uma perspectiva de que cuidar da alimentação é cuidar também da resposta do corpo a esses ciclos — e a pele é parte desse corpo.
Já escrevi sobre cozinhar para si mesma como ato de autocuidado — e o que fica dali é que a relação com a própria alimentação tem dimensão de cuidado que vai além do nutricional. É presença, é atenção ao próprio corpo.
Alimentação e skincare — rivais ou parceiros?
A pergunta do título não é uma crítica ao creme. É uma expansão amiga.
Skincare tópico tem funções específicas que a alimentação não substitui: barreira cutânea, proteção solar, hidratação superficial, ativos que agem na camada externa da pele. Essas funções são reais e importantes — e não é porque você come muito betacaroteno que pode parar de usar protetor solar.
O que muda quando você inclui alimentação na equação não é o que você usa por fora. É a compreensão de que a pele tem um lado de dentro que também merece atenção.
Já escrevi sobre o que o inhame pode e não pode fazer pela beleza da pele — e o padrão é o mesmo: nem superalimento, nem solução mágica. É um ingrediente num conjunto maior.
Skincare cuida da pele. Mas a história da pele não começa quando você abre um pote.
Como incluir isso sem transformar alimentação em mais uma tarefa
Não vou te dar um cardápio de sete dias. Não é isso.
O que eu fiz — e funciona — foi começar a notar o que cada coisa faz. Um limão no suco ou na comida durante o dia. Uma cenoura no almoço quando der. Abacate na salada quando compro na feira. Tomate que já entra naturalmente em muitas refeições.
Não é uma dieta. É uma atenção.
Quando você entende que vitamina C participa da produção de colágeno, o limão que você já usa na comida vira um pouco diferente na sua cabeça. Não muita coisa muda na prática — mas alguma coisa muda na consciência.
E às vezes é essa mudança na consciência que precede qualquer mudança mais concreta.
Eu não esperava que a academia me ensinasse a olhar diferente pra pele. Esperava resultado físico, que veio em parte. O que não esperava era abrir meu guarda-comida e começar a enxergar skincare nele.
O abacate que eu não gostava hoje é parte da minha semana. Não porque eu precisava ser saudável. Porque fui entendendo o que ele faz — e isso muda o gosto da coisa.
Talvez o próximo passo do seu skincare não seja um produto novo. Talvez seja um olhar diferente pro que você está colocando pra dentro.
Me conta nos comentários: você já presta atenção na alimentação como parte do cuidado com a pele — ou ainda está separando as duas coisas na cabeça?





