Em Que Momento Ser Você Mesma Ficou Tão Difícil?

Tenho pensado bastante nisso.

Toda a sociedade dita o que é certo. As redes sociais impõem que o correto é aquilo. Todas precisam ser padrão — ter o rosto tal, a aparência tal. Não pode ter estria. Não pode ter uma manchinha. Daqui a pouco não vai poder nem envelhecer que vai estar errada.

Vou ser sincera: estou cansada disso.

Vejo milhões de mulheres espalhadas por esse Brasil — e pelo mundo — exaustas. Não do trabalho em si. Exaustas de serem uma coisa num lugar e outra coisa no outro. Cansadas de ter que gerenciar a versão de si mesmas que é permitida em cada espaço. Esse cansaço específico não tem nome fácil, mas qualquer mulher que já saiu de uma reunião sorrindo por fora enquanto estava desmontando por dentro sabe exatamente o que estou descrevendo.

O que eu vi numa tarde qualquer de trabalho

Quando trabalhava em RH, saía do expediente observando as meninas. No fim do dia, elas estavam destruídas — não só cansadas, mas de um jeito que ia além do físico. Estresse que vai fundo.

E eu ficava pensando: pra quê? Dinheiro? Minha saúde mental e física trocada por dinheiro?

Mas aí entendi uma coisa mais complicada do que parecia: a sociedade criou mulheres independentes e solitárias ao mesmo tempo. Livres de algumas amarras e presas em outras que às vezes são invisíveis demais pra nomear.

Dentro da empresa eu era uma coisa: sorridente, firme, presente. Fora dela eu era outra: mais quieta, mais vazia. Durante um tempo não percebi que estava fazendo isso — a troca automática entre versões de mim mesma dependendo de quem estava olhando.

Comecei a observar as colegas mais de perto.

E foi numa tarde que encontrei a Liandra.

Ela sempre ficava de mangas compridas. Qualquer temperatura. Qualquer ocasião.

Num momento que não estava planejado, vi as marcas no corpo dela — cicatrizes de um passado difícil, de um período em que a dor de dentro precisou sair de alguma forma.

Eu escorreguei, caí. Ela me viu.

Saí envergonhada, não sabia o que dizer. E ela me olhou, calma, e disse: “Eu sei, Ada. Pode sair.”

Fiquei parada. Ela me abraçou e disse uma frase que não saiu da minha cabeça desde então:

“Eu não sei quem eu sou fora daqui. Mas na minha casa eu consigo ser eu mesma. Essas cicatrizes são do passado — hoje sou livre, Ada. Posso ser quem eu sou.”

E sorriu.

Chorei. Não de pena — chorei porque aquela frase era enorme demais pra caber numa conversa de corredor. Porque ela estava descrevendo algo que eu também sentia, e que várias daquelas mulheres ali sentiam, cada uma à sua maneira: a distância entre quem somos e quem mostramos.

Nota importante: se você reconhece na história da Liandra algo que você também vive — não o passado, mas o presente — e está carregando uma dor que parece grande demais pra sair de outra forma, não precisa carregar isso sozinha amiga. O CVV (Centro de Valorização da Vida) atende 24 horas pelo número 188 ou pelo chat em cvv.org.br. Você merece apoio real.

O que a sociedade faz com a identidade da mulher

Existe um processo que acontece tão devagar que a maioria das mulheres não percebe enquanto está acontecendo.

Você vai ajustando. Um pouco aqui, um pouco ali. Suaviza a opinião pra não parecer difícil. Muda o estilo porque o que você gostava não é o que está em alta agora. Consome o conteúdo que todo mundo consome, fala dos assuntos que parecem os certos, demonstra entusiasmo pelas coisas que parecem desejáveis.

Não por maldade. Por sobrevivência social.

E um dia você olha pro espelho e percebe que não sabe ao certo o que é sua e o que aprendeu que deveria ser.

Isso não é fraqueza. É o resultado previsível de viver num ambiente que constantemente diz o que é adequado, bonito, correto, desejável. As redes sociais aceleraram esse processo de uma forma que gerações anteriores não experienciaram — a comparação que antes era local agora é global e constante.

A pergunta que pode mudar alguma coisa

Existe uma investigação pequena mas poderosa que eu proponho:

Essa escolha é minha, ou eu aprendi que deveria querer isso?

Não existe resposta certa ou errada. Mas a pergunta abre algo que fica fechado enquanto você está no piloto automático da aprovação externa.

A roupa que você comprou — você realmente gosta, ou é porque está na tendência e parece o que mulheres admiráveis usam?

O jeito que você cuida da pele — é porque esse ritual te faz bem, ou porque construiu uma versão do autocuidado que você acha que precisa ter pra ser levada a sério?

A carreira, as escolhas, as opiniões — quais são genuinamente suas e quais foram moldadas pela necessidade de ser aceita num determinado ambiente?

Isso não invalida nada. Uma escolha influenciada pelo contexto ainda pode ser genuinamente sua. Mas saber de onde vem muda a forma como você se relaciona com ela.

Autenticidade não é fugir de todos os padrões

Preciso dizer isso porque a conversa sobre “ser você mesma” às vezes deriva pra uma versão ingênua que não ajuda ninguém.

Autenticidade não é usar uma roupa estranha pra provar que não liga pra opinião dos outros. Não é rejeitar toda tendência por princípio. Não é nunca mudar.

É perceber quais padrões você escolheu e quais escolheram você.

Você pode gostar de maquiagem e se sentir completamente você mesma maquiada. Você pode gostar de uma tendência porque ela genuinamente combina com quem você é. Pode mudar de opinião, de estilo, de hábito — e ainda assim estar sendo autêntica, porque autenticidade é um processo, não uma identidade fixa.

O que machuca não é a mudança. É a substituição — quando você abandona o que é por algo que parece mais aprovável, sem perceber que está fazendo isso.

Já escrevi sobre a relação entre autocuidado e amor-próprio — e essa conversa continua aqui de um jeito diferente. A beleza que você pratica pode ser genuinamente sua. O problema é quando ela vira uma performance pra ser aprovada em vez de um prazer que pertence a você.

O que acontece quando você sustenta uma escolha sem validação

Autenticidade tem um custo que ninguém menciona muito.

É o custo de sustentar uma escolha quando ela não recebe aprovação imediata.

Você faz algo diferente do que todo mundo espera — usa o que quer, fala o que pensa, escolhe de um lugar que é genuinamente seu — e a validação não vem. Ou vem menor do que vem quando você faz o que é esperado.

E aí a pergunta difícil: você consegue manter a escolha mesmo assim?

Essa capacidade — de não precisar que toda decisão seja celebrada pra saber que foi a certa — é o coração do que estou tentando descrever. Não é indiferença ao que os outros pensam. É uma relação diferente com essa opinião. Ela informa, mas não decide.

Pensar nos problemas da perspectiva certa ajuda muito nisso — e o julgamento de quem está ao redor fica em proporção mais real quando você para pra pensar no quanto ele realmente importa na escala do que é a sua vida inteira.

O que a Liandra disse que ficou comigo

“Na minha casa eu consigo ser eu mesma.”

Isso me perturbou porque ela não estava descrevendo paz. Estava descrevendo isolamento como condição necessária pra ser quem era.

E pensei: quantas mulheres só conseguem ser elas mesmas em privado? Quantas guardam a versão real pra quando não tem ninguém olhando?

O objetivo não é que todo espaço seja seguro o suficiente pra você ser completamente aberta — o mundo não funciona assim. Mas existe uma diferença entre adaptar o tom de acordo com o contexto e esconder quem você é pra sobreviver.

Quando a mente carrega peso demais, a natureza ajuda a desacelerar — mas algumas cargas precisam de mais do que uma tarde no parque. Precisam de ambientes e relações onde você não precisa gerenciar tanto a versão de si mesma que aparece.

Isso começa com decisões pequenas. Não concordar quando não concorda. Não fingir entusiasmo que não sente. Ocupar espaço mesmo quando ninguém pediu que você ocupasse.

Pequeno. Constante. Real.

Uma última coisa

Eu tenho o NutraGlow por isso.

Não só pra falar de skincare — mas pra ter um lugar onde posso dizer o que penso, contar o que vivi, nomear coisas que muitas vezes ficam sem nome. E pra que você, leitora, tenha um lugar onde pode reconhecer alguma coisa sua na experiência de outra mulher.

Quando a mente está cheia demais, às vezes o que a gente precisa não é de uma solução — é de um espaço pra existir sem performance. Um lugar onde ser você mesma não precisa ser justificado.

Esse é o convite desse artigo. Não a promessa de que você vai sair daqui “sendo você mesma” como num passe de mágica. Mas a pergunta que fica:

O que você manteria das suas escolhas se ninguém estivesse olhando?

Isso que é você.

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